vazio

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Os dias que sucederam minha morte virtual se assemelhavam ao estudo de uma arquitetura complexa. Eu não entendia do que era feita e qual era meu propósito. Um vazio constante rondava meus pensamentos, tudo acabava em nada. Eu não sentia prazer em fazer nenhuma atividade, eu não sentia interesse. Era como se a conexão com a internet estivesse ruim o suficiente para atrapalhar todo o meu planejamento do dia, assim, me obrigando a gastar minhas horas com atividades como mangás, animes, livros e palavras cruzadas. Atividades não tão importantes e prazerosas quanto scrollar um feed qualquer. O sentimento de que a qualquer momento a internet voltaria estava entalado na garganta, e vira e mexe eu tinha que me lembrar de que eu estava isolada de tudo por escolha única e exclusivamente minha.

É incrível o poder de anulação que a tecnologia tem. Nada antes dela vale a pena, nada que não seja ela pode ser considerado bom.
E aqui estou eu, doente e descabelada beirando a loucura dos meus últimos e eternos dias de trabalho. Eu sempre quis dar fim na minha vida virtual, mas isso se agravou nos últimos tempos, depois que soube que seria mandada embora. Não me pareceu interessante ficar em casa bisbilhotando a vida dos outros, sem aproveitar nada, sem aprender nada. Decidi retomar alguma atividade gostosa que acabei abandonando por falta de tempo. Reconstruir hábitos.
O sentimento de estar desgostosa hoje, não dói. Eu posso estar entediada e sem amor em nada, mas pelo menos não tenho a obrigação de estar linda. Eu não vou postar nenhuma foto hoje, sequer irei tirar. Estou deixando ir embora a masturbação definitiva de ego. É só olhar alguns dias para trás e analisar o comportamento obsessivo por beleza. O prazer por se admirar ou o transtorno ao admirar outras pessoas e se odiar. Passar horas entendendo que sou um fracasso social por não ter aquela roupa, aquele tênis. Aquele olhar, aquela carisma. Agora nada disso importa. Eu nem existo mais. É estranho, às vezes gostoso e às vezes um saco.
Minha única rede social ativa é o twitter, e no momento ele tem se parecido com um cemitério de sentimentos. Entro lá e vejo que não sinto mais nada, que não tenho nada a dizer. O que eu preciso dizer tem que ser dito em outro lugar que não seja exatamente lá. O público me assusta. Algumas pessoas insistem em me cobrar atenção, mas elas não entendem que eu não estou nem aí. Eu raramente estou aí pra alguma coisa. Na verdade, ninguém está aí pra mim. Não estão aí pra nada. Primeiramente, as pessoas são uma catástrofe. Eu sou uma das grandes.
Quando começo a analisar esses meus traços de personalidade, questiono como é que eu fui acabar presa num lugar cheio de gente. Tudo foi pelo ego. Toda a minha destruição começou pela vontade de me construir. A batalha travada agora é contra o tempo, contra as rotas, contra as ideias. As velhas e implantadas ideias. Observo as pessoas ao meu redor e tudo com o que elas estão preocupadas é com o que vão comprar, vestir, parecer, quem vai ver. Eu também estava assim, é vergonhoso. Nós nos tornamos máquinas consumistas exibicionistas desenfreadas. Eu quero uma guerra. Eu quero caos, qualquer coisa que mude o curso que as nossas vidas estão tomando.
No momento, eu sigo tentando recuperar a minha humanidade. Reencontrar o tesão nas coisas. Conseguir tocar o véu mágico da existência nem que seja por breves segundos, mas todos os dias. Deslogar do efêmero. Me sentir confortável estando não-apresentável. Sentir ao menos por um segundo, que tudo bem eu não ser especial. O problema é que eu também não quero uma vida ordinária. Mas isso é conversa pra outro dia.

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Soldada

Soldada, não de chumbo. Soldada pelo cansaço que se agregava ao meu corpo; éramos como um só. Acordar e olhar para o céu com um sorriso nos olhos se tornava difícil já que o pesar era tão grande a ponto de me fazer enxergar tudo em preto e branco. No banco, aquele da mesma praça de todos os dias, eu sentava e me aterrava. Eu era uma com o banco também. Invisível, moldada por tudo que me cercava. Tudo de indiferente e tudo de negativo. Pessimismo, esse era meu pior e único amigo.
O tempo passava apressado, levando consigo tudo o que poderia mudar quem sou. Por entre aqueles dedos soava o tique taque, e o tiquetaquear levava os sorrisos que não dei, os passos que não caminhei. Trazer dores, trazia. Algumas reais, outras inventadas. Mas no final, que diferença fazia se tudo que me tocava doía? E era uma dor sem fim, sim. Um ciclo vicioso maldito, que me deixava cheia de hematomas, por dentro e fora. Se fora, pela janela, a esperança de um dia me sentir bem.
O que me fazia tão mal, você se pergunta. Não importa. Qualquer dor que for citada será diminuída. Porque meus problemas nunca serão tão grandes quanto os seus. Meu sangrar é banal enquanto o seu é real e dói.
A tristeza existe desde que o mundo é mundo, e a batalha contra ela é eterna. Houve dias em que eu, pisando nessa terra seca, senti que não precisava mais lutar. Com os pés firmes no chão eu estava agarrada a dor e teimava, dizendo que a dor era eu e eu era dor e nada mais. Nada nasceria e cresceria belo em mim. Podridão e derrota. Comodismo e preguiça. Morte.
Centrada em todas essas ideias, não me ocorreu que fui inundada.
A chuva cai, é bela e tem amantes. Mas quando não se ama mais nada sobre a terra, não se nota também o que cai do céu. Enquanto estive atordoada, não havia o sentir e o agir. Havia o nada morando em cada pedacinho de mim, até que a mudança chegou. A água me inundou vagarosamente e eu relaxei. O seco se transformava em algo diferente e macio, e toda aquela firmeza criada com o passar dos anos ia se desfazendo com o bater da água em minhas paredes. As rachaduras se fechavam e meu coração tinha em si o barulho do mar. Eu me entreguei e fui levada pelas ondas. Todos os tipos delas. Era prazeroso, como era! Sentimentos tão diferentes dos usuais, aqueles terrenos. Fui arrastada e não liguei, me acomodei. Eu queria ficar ali, imersa em sentir. Para sempre. Falhei. Com o tempo, fui me afogando nas emoções que me cercavam. Aquelas, que não existiam há um tempo atrás, agora estavam a me consumir. Emoções sentidas por mim, sentida por outros. Criadas por mim, criadas por outros. Eu ali, sem poder ver a luz, não sabia mais definir se o que eu vivia era real ou não. Desejei ter meus pés na terra novamente e jamais pisar em águas. Eu fui enganada.
Eu achava que tinha sido enganada, mas o que tinha acontecido foi que eu me enganei. Eu, como boa moradora de terras, achei interessante viver cercada de algo que fizesse eu me sentir viva, mas tudo que vem em excesso causa dor. E agora, eu queimava.
Como em uma explosão, fui expulsa do mar. E enquanto eu caia, sentia meu corpo ser consumido e em meu estômago habitavam borboletas em chamas. Como os apaixonados, eu me sentia preparada para voar com elas até que eu virasse cinzas, mas a dor não me permitia. Tão diferente dos apaixonados…
O cair parecia eterno e eu me sentia lava que escorre sem destino. Me sentia míssil sem alvo. Eu ia explodir em meio ao nada e de mim viria o que? Eu não era nenhum Big Bang. Minha cabeça turbulenta não me deixava encontrar soluções e o fogo se alastrava por dentro de mim como se eu fosse madeira, até que caí.
Um monstro de fogo havia tomado minha forma, e eu caminhava pela floresta em que havia caído, vagarosamente destruindo tudo ao meu redor. Eu olhava para o céu e podia ver as faíscas cintilantes flutuarem por cima de mim, que já não me sentia eu. Por onde eu andava? Terras estranhas, lugares vazios ou tão cheios de nada. Me perguntei porque estar viva podia deixar marcas tão profundas, e tentei me reconhecer. De solo seco, fui abençoada com chuva, onde algo em mim finalmente cresceu. Fui-me com a chuva e virei mar, onde tudo que era tão sublime me destruiu. Eu queria apagar. Sentei-me entre as flores e assisti a morte certa de todas elas. Fechei meus olhos combustíveis e apertei minhas mãos contra meu peito. Apertei fundo, como se estivesse cravando unhas em meu coração e o rasgando. Deixando exposta minha dor e talvez assim alguém pudesse ver e compreender o que havia dentro de mim. Isso, que nem eu poderia saber por inteiro, mas que me tirava o controle dias e noites. Deixei-me aberta ao mundo e assim algo poderia me salvar. E assim algo poderia me apagar. Eu gostaria de poder dormir em terra firme novamente mas sentir o frescor por dentro, como se em mim jorrassem as águas do mar que me limpariam de toda essa imundice que criei ou que depositaram em mim. Sentir-me lavada por dentro, mas ter em algum canto de meu corpo esse calor, essa energia para que me sentisse viva às vezes. Ser amiga do monstro de fogo, e se eu morresse, ele poderia me ressuscitar e eu seria a primeira fênix a voar pelos céus.
Lágrimas escaparam de meus olhos e por onde correram, o fogo foi se apagando. Eu sentia o alívio, a vitória. Os pedaços apagados sentiam-se livres.
E então, chorei como nunca.
Chorei, até que toda combustão se desfizesse. Chorei para me libertar. Tirei de mim aquele coração negro e empoeirado, e quando o recoloquei de novo já não era mais o mesmo. Queimava, batia de maneira voraz. Levantei-me e eu havia me transformado novamente. Meu corpo ali estava, mas era leve. Respirar era agradável. Olhar o céu com um sorriso nos olhos era possível. E quando a brisa tocou meus cabelos, eu soube que ela havia feito uma morada em mim. Me senti brisa, me senti chuva, senti meus pés na terra firme e o calor de uma vida em minha frente. Me senti possivelmente capaz de fazer o impossível. Me senti plena e feliz.
Eu havia ganhado a batalha, aquele dia. Mas não baixei a guarda, pois sabia que eu estava em guerra constante e me lembrava dos ferimentos, me lembrava das derrotas de alguns dias.
Soldada, sim. Eu havia me transformado em uma no processo da dor. De pé hoje, amanhã não se sabe. Amanhã não importa.