saudades

Penumbra

Amargurado o canto preso em minha garganta
Que não sai em forma de notas
Mas desce com a saliva áspera
Em meio ao escuro e o clarear.

Lascívia ávida, o meu penumbrar.

A lentidão do tique taque nos corredores
Me traz remotos pavores
Que há tanto eu não queria buscar.
Busco pela teimosia
E anseio pelo pouco de dor
Que esse amor irá causar.

Passa a dor e o amor fica
Fica com essa ausência de tudo que é esse nada
Quando não tenho o sabor do seu olhar.
Tenho fome de ti, fome de seus olhos famintos
Olhar de lobo ao luar.

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Ressonâncias

Lá é sempre lá
Mesmo que se confunda ou misture
Com qualquer outra nota
O lá é especial e melancólico
Assim como o lá que não é aqui

Aqui
A tristeza da nota insiste em permanecer
Pairando no ar, me tirando para dançar
Não quero dançar aqui, somente lá

Porque tão triste, heim, lá?
Me ensinaram há tempos
Aqui na frente desse mesmo portão enferrujado
Os sentimentos de cada nota
Dedilhando lentamente
Descrevendo
Recitando
Cantarolando

Quando chegou sua vez
Não foi preciso dizer que você era a tristeza
Porque ela imediatamente
Se instalou no meu coração
Eu gosto de sentir você
Eu gostaria de tocar você

Quero te tirar do ar e te pegar pra mim
Porque me compreende

Somente um pouco de lá em mim
Iria tragar a minha tristeza para seus pulmões aflitos
E depois soltar como fumaça para o céu
E então,
Depositaria em seu lugar a ressonância harmônica de paz

Como pode uma nota triste trazer alegria?
Tristeza entende tristeza, veja bem
Um pouco de lá aqui, e então eu fico bem.

Destinatário: ____

São Paulo, 13 de setembro de 2016

Hoje eu pensei em você.
Ontem também, mas hoje foi mais forte. Eu queria poder te ver.
Hoje eu preciso de coisas estáveis e rotineiras, se eu fosse te encontrar saberia exatamente o que iria acontecer. Você sempre foi previsível. Sempre, e isso te irritava demais. Eu previa tudo o que você ia sentir, falar, fazer e isso te transtornava. Mas fatos são fatos, e eu os tinha sobre você.
Há também outros fatos. Você foi um grande amigo, bom ouvinte e ótimo companheiro. Hoje, na mesa do bar sozinha, desacompanhada até mesmo da boa e velha cerveja, meus olhos varreram o salão na busca dos seus. Olhos pequenos, fechados e amigos. Não encontrei.
Tenho as memórias de você em mim, todas inteiras e intactas. E por isso me recuso a voltar ao passado. As memórias boas me confortam, mas as ruins são péssimas e doem demais.
Eu queria que essa carta chegasse a você, apesar de não querer que minhas palavras te machuquem. Talvez eu rasgue. Talvez os ventos que envio te contem quando se chocarem contra as costas da sua montanha. Meu voo não alça mais e nunca fui fã de escaladas, apenas para que você saiba. Sinto sua falta, sinto mesmo. Sinto muito, mas vou caminhando e não tenho hora para voltar.
Acho que eu só queria que soubesse que nunca houve alguém tão desfiltrado quanto você, e por isso houve um fim. Melhores conversas, risadas intensas, assuntos absurdos, comentários aleatórios, dores devastadoras. Sem filtro. Sem pudor. Estilhaços e socos espalhados em meio ao gosto amargo de todas as cervejas tomadas. Espelhos quebrados, realidade distorcida, palavras cortantes até mais que a navalha que muitas vezes cobiçamos e almejamos para o fim. Fomos nós. Clube da Luta sem sabão, sem revolução. Apenas o misto de amor e dor.
Sei que sempre pensou o pior de mim e que com o tempo isso apenas se agravou, mas deixo o lembrete de que vasos ruins não quebram. Quanto a mim, sou destroços. Os socos no estômago são os piores, e eles sempre voltam. Eu não.

Ps. Estou juntando o que te devo. São tempos difíceis, pra não dizer impossíveis. Mas que fique dito que quito minhas dívidas. Menos a com o demônio.

 

Um abraço amigo,
por mais frio que pareça.