poesia

Canto aflito

Levanto  e canto
A voz é presa e rouca
O sentimento é solto
A melodia é pronta

O lápis aponta
A boca se cala e sento
Penso pensamentos pesados
A mão treme ao relento

Respiro e escrevo
Tento encontrar a força
Escrevo sobre desespero
Essa coisa guardada na bolsa

Carrego pra todo lado
Fecho o ziper pra não escapar
O fecho fica cansado
E grita que quer soltar

Solta logo a dor
Deixa a lágrima sambar
O samba triste de quem escreve
Quando na verdade se quer cantar.

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Contratempo

E se eu te disser
Que ao despertar vi a lua aparecer
E que ao anoitecer vi o sol raiar
Dirias tu: que loucura!
Louca não estou
Sei o que vi e o que sou
E tudo se passa ao contrário
Diante dos olhos meus
Que teus são
Por imenso
Tanto quanto o mar que acolhe estrelas
E quanto ao céu em que mergulho agora
Por hora
Diga que vê também
Com esses olhos teus
Que são meus
Mas que estão rasos de tanto chorar.

Abismo

Se minha cabeça pesa por nada haver
eis que devo pensar para aliviar a pressão.
Se meu coração é leve porque muito carrego
devo carregar menos peso para sentir o pesar.
O vazio na cabeça pesa
pois um nada vale mais que pouca coisa
e o sentir é leve porque abafa a razão.
Prefiro carregar um peso
não pra sempre, mas agora
pois o leve pesa mais que o pesar quando se sente.
Eu só queria ser leve
mas tudo que sou é cabeça de vento
com um vendaval no coração.