inspiração

Canto aflito

Levanto  e canto
A voz é presa e rouca
O sentimento é solto
A melodia é pronta

O lápis aponta
A boca se cala e sento
Penso pensamentos pesados
A mão treme ao relento

Respiro e escrevo
Tento encontrar a força
Escrevo sobre desespero
Essa coisa guardada na bolsa

Carrego pra todo lado
Fecho o ziper pra não escapar
O fecho fica cansado
E grita que quer soltar

Solta logo a dor
Deixa a lágrima sambar
O samba triste de quem escreve
Quando na verdade se quer cantar.

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Ela, a Inspiração

Ela tinha um caminhar lindo e eu sorri.

Atrapalhado que sou
Não permito que minhas pernas vacilem
Mas minhas palavras saem aos tropeços
Se quebrando ao chocar com as pedras
Se perdendo pelas esquinas.

Meu olhar saiu cuspido
Assim
De supetão.
Não sinalizei vergonha
Mas meu coração ruborizou.

Fruto da minha imaginação que me domina
Sobe em meu corpo e me usa
Essa moça que tanto me esnoba e quando passa
É passageiro por demais.

Te convido a pular minhas janelas
Ficar para um café
Ir para o banho, para a cama
Ir para onde quiser.

Suspirar ao te sentir é tão bom
Pena que tu já não podes avistar meu sorriso
Então deixo que o vento te entregue ao te encontrar
No dia que tu, moça, fores partir
Montada nas costas vastas do céu
Flutuando no ar.

(Às vezes escrevo no masculino, e falarei sobre isso em breve).

Empurrão cósmico

Que escritores tem travas, todo mundo sabe. Mas no final, sempre alguma coisa acaba saindo, e geralmente uma coisa ótima. Como será que eles lidam com isso? Eu não sei, mas tive alguma ajudinha nos últimos dias para me colocar no caminho novamente. Já faz algumas semanas que estou com um bloqueio que até hoje eu julgava ser eterno. “Por Odin! Eu nunca mais irei conseguir escrever alguma coisa novamente!” Em partes a culpa é minha. Quer dizer, a culpa é minha. Mas uma parte da culpa eu não tenho exatamente culpa, por ser algo mais profundo e que já está impregnado no meu subconsciente, que é a maldita falta de confiança. Encarar aquela página em branco e sentir aquela onda de tensão, como se o Word fosse um monstro prestes a me atacar se eu falhar em escrever algo bom. Aquele medo de ler tudo depois e pensar: “Onde é que eu estava com a cabeça? Isso aqui tá uma porcaria.” Eu definitivamente não sou uma psicóloga para entender bem dessas coisas e contorná-las como se não fossem nada. É bem complicado ser tão rigorosa comigo mesma a ponto de não me permitir errar. Ser orgulhosa demais para reler de maneira imparcial e admitir que não está bom e ter determinação para tentar do zero de novo, ou talvez pior que isso, nunca reconhecer que está bom como está e sempre querer mudar tudo e revisar e revisar e revisar ao invés de deixar de lado e tentar escrever outras coisas. É esse lado que é o culpado. Culpado por ser fraco e se render tão fácil. Que adianta eu ter medo da página? Se eu sempre me olhar com esse olhar tão crítico, mais nenhuma palavra irá sair mesmo. Eu preciso me deixar levar. Tentar escrever todos os dias, pois a escrita também precisa de treino. Eu estava completamente desgostosa com essa minha falta de força para dar continuidade nos dois projetos de livro, e sem inspiração nenhuma para escrever um poema ou qualquer outra aleatoriedade que eu estivesse sentindo. Mas parece que o universo vai trazendo sinais, querendo me empurrar para frente. Bem sutis, o que é estranho para mim, já que geralmente minha vida não é nem um pouco gentil e se precisa me dar um empurrãozinho, vai logo me jogando do penhasco. Começou com várias garotas de um cabelo loiro natural frequentando a biblioteca onde trabalho. Vira e mexe aparecia uma ou outra por lá, todas com um estilo parecido, e todas me lembravam a minha protagonista. E aí pensei: “Caramba, será que isso é um sinal para que eu deva voltar a escrever? Vejo minha protagonista por todos os cantos.” Mas acabei deixando quieto, ignorei o sinal. Não por querer, mas por pensar em escrever, não ver a ideia surgindo e nem ao menos ter a vergonha na cara de ir tentar. O pessimismo sempre presente. No início da semana, enquanto eu estava sentada no ônibus, com meus fones de ouvido e completamente imersa nas músicas, senta uma mulher ao meu lado. Ela fica olhando pela janela por um bom tempo, com uma cara de pessoa concentrada no universo. Olhei também, para ver o que ela estava vendo. Havia uma brisa, e balançava os galhos de árvores por onde passávamos. O céu estava limpo, apesar de o tempo estar bem frio. Ela estava contemplando aquilo, e de repente, tirou uma folha qualquer da bolsa e começou a escrever. Primeiro, pensei que podia ser algo da faculdade, algum trabalho, cola para a prova. Eu estava me coçando de curiosidade, então comecei a espiar, tentando enxergar o que estava escrito, e depois de algumas tentativas, vi que ela escrevia sobre amor. Algumas frases soltas, talvez um poema desconstruído, talvez uma tentativa de não deixar a ideia fugir, ou um texto normal. O que me deixou intrigada, foi o ato impulsivo de começar a escrever ali, oito horas da manhã, em um ônibus lotado, em um pedaço de papel qualquer. Foi um aviso bem interessante me dizendo suavemente: quem quer, faz. E então, como esperado da minha pessoa, ignorei o sinal mais uma vez. É sempre aquele monte de pensamento de merda, minha luta interna, minha mente me passando a perna. “Isso é pra ela, não pra você. Se tentar não vai conseguir, você está sem inspiração, só vai se irritar, amassar tudo e jogar fora.” Se render a esses pensamentos é a pior coisa que faço na vida. E então, acho que o universo começou a ficar sem paciência. Viu que ser delicado comigo não adianta muita coisa e resolveu me dar uma mensagem clara e direta, através de nada mais nada menos do que Bukowski. Eu estava arrumando meus livros na prateleira, quando avistei o “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, e bateu uma saudades. Eu já li esse livro e amei, e óbvio que já tinha lido essa passagem antes, mas mesmo assim, não pode ter sido por acaso que abri aleatoriamente o livro e foi cair justamente nessa página:

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Uma honra ter levado um puxão de orelha dele! E então, depois de ler isso, sorri. Melhor parar de ignorar os sinais, criar vergonha nessa coisa que chamo de cara e ao menos tentar. Não vou perder nada se der errado. Pelo contrário, irei ganhar. Depois desse “sinal” ser jogado bem na minha cara, comecei a pensar sobre todos os empurrões do penhasco que a vida me dá e concluí: “É por isso que a vida nem tenta ser gentil comigo. Sabe que sou otária e ignoro os sinais!” HAHAHAH. E é com outro dos mini sinais que vi por aí, que vamos fechar o post de hoje, e esse é de Martin Luther King: “Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo.”

Por hoje é só, e até a próxima dose!