comparação

Nas asas da madrugada

O bater de asas é incessante. Eu enrolo minha cabeça nas cobertas na esperança do zumbido desaparecer.

“Preciso acordar cedo, preciso dormir. Vai embora, desgraça.
Ela não vai. Continua batendo aquelas asas de mariposa. Como pode ela ser tão feia? Não poderia ter entrado uma borboleta? Além de silenciosa, é bela. Asas coloridas e formosas no lugar de pacatas asas cinzentas e derrotadas. Não há brilho. Ela nada mais é do que uma borboleta que deu errado.”

Aquieto um pouco meus pensamentos. Sinto as palavras pensadas. Escuto vozes lá da infância e dedos apontados para mim. Minhas palavras não são minhas, são um reflexo de comportamento alheio. Fui ferida, agora firo. Não quero.
Quantas vezes fui reconhecida como monstro quando eu apenas era o que era? A falta de pensamento crítico gera crueldade. O diferente assusta, mas somos todos diferentes e então somos todos afetados pelo comum. Peculiar.
Passei a vida reproduzindo contra mim mesma as frases ditas por outros. Na frente do espelho, mariposa sonhava um dia se tornar borboleta. Brilhar e ser amada, deixando para trás a vida de ser um incômodo. Elegante e silenciosa, como a sociedade espera que eu seja.
Maldição.
Tento me desculpar com a natureza, por ter feito a uma criatura tão pequena o que as pessoas fazem umas as outras o tempo todo. Repito para mim mesma, numa forma de mantra: Não somos feios, somos cheios de singularidades.

As asas agora batem numa frequência menor. Ela para e volta. Para. Volta. Está tentando encontrar uma saída mas tudo o que faz é bater de encontro com a mesma parede, no seu voo circular. Presa num looping. Rolo para lá e para cá. Não posso acreditar que isso esteja acontecendo justo hoje.
Ao fundo, vozes de um desenho que amo com toda a minha alma me distrai. Eu sei de cor cada frase. É minha cunhada que passa a madrugada assistindo e me sinto incomodada porque a realidade grita que preciso dormir, mas meu coração me deixa voar para aquele universo incrível. Fecho os olhos e vejo as cenas. Sorrio. Me perco por alguns minutos e me puxo de volta. Eu preciso dormir.
Volto a me concentrar nas asas da mariposa. Sim, ela ainda está aqui. E eu e toda a minha humanidade ainda está julgando sua existência. Como pode ela não entender que a porta do quarto está aberta e que a janela da cozinha é a saída para a sua liberdade? Outro tapa me atinge quando entendo que sou como ela, cega, tentando fugir por lugares absurdos quando a saída está bem em frente aos meus olhos. Suspiro.
Penso em desistir e levantar, escrever. Mas não posso. Não hoje.
A realidade é coisa que prende e dói, às vezes a gente quer ludibriar e fazer um encanto para ficarmos presos em nossos próprios universos mágicos, mas sabemos que há sempre um preço a ser pago. Eu sei disso.
Me canso de odiar a mariposa. Talvez ela tenha entrado pela janela apenas para me fazer pensar nessas coisas. Metade de mim acredita que a vida em si é consciente e nos afeta diretamente através de métodos estranhos em horas inconvenientes. A outra metade apenas bufa entediada, repetindo que nunca há um propósito na maneira como o universo se movimenta e que a mariposa entrou porque é o que mariposas fazem, sou eu quem dá significado as coisas.
Não importa.
Tudo isso pode ser aleatório e insignificante, mas ainda assim, me deu algo para pensar. Eu já não sou a mesma. Estou em movimento mesmo parada.
Num mundo onde de um casulo ou outro saem borboletas coloridas majestosas, almejamos alcançá-las. Mas a mariposa não é como nós. Esse é meu pensamento sobre o pensamento da mariposa. Ela não pensa, muito menos se sente inferior a algo semelhante. Talvez até mesmo a insignificância ensine e o efêmero perdure de alguma forma, cravado em nossas ideias, gerando uma nova energia para encararmos a vida de outra maneira.

Paro com todos os pensamentos acelerados e até mesmo insanos e percebo que ela não está mais aqui.
O bater de asas se foi e finalmente tenho o silêncio que preciso para descansar. Pode ser que ela nunca esteve em meu quarto. O barulho pode ser um voo desesperado de uma mariposa interior, angustiada pela tamanha falta de compreensão minha, ansiosa por uma fuga. Afago meu peito. Eu entendo agora, e minhas asas repousam em um sono tranquilo.

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Overdose

Me servindo de qualquer coisa que tape os buracos do meu ego
Já não me importa que esteja estragado.
Adoração vencida, ou desesperada
Me agarro ao desespero de querer ser amada.
Login feito aonde der pra fazer
Mas a vontade de viver continua encostada
Na prateleira mais alta da estante.

Ela passa e me quer
Tanto quanto o vento quer levar folhas para passear.
Não quer mais.

E eu desligo logo
Deslogo de mim ou máscara
Tanto faz.
Eu nunca soube diferenciar
Já que depois de tanta insistência em ser perfeita
A imperfeição me reveste e explode
Em mil reflexos nas partículas de ar.
Me vejo, me sinto, e sinto muito por não desvincular.
No dia em que o ódio acabar, a inveja estará submersa
E então um novo espelho se levantará.
Nele estará tudo nítido e negro
Por já não importar mais com o que minha casca parecerá.

Estou aqui, ali e em todo lugar

Ela sabia que tinha que fazer, mas não fazia. Ela queria fazer e tinha tempo para isso, mas algo simplesmente a segurava. Ela se contorcia e dizia que sim, iria fazer hoje. Agora.
Sem demora, essa coisa inominável que sou surgiu, e de repente pareceu estar muito calor para se concentrar. Ela precisou levantar para tomar água e para ligar o ventilador. Depois disso, tudo deveria estar certo, mas ela encarava o monitor com desdém e toda vez que seus dedos pensavam sobre a possibilidade de começar a digitar, um raio de pensamento idiota aparecia. Implantado por mim, claro.
“ Diabos, porque não consigo me concentrar? Porque não consigo fazer? É como se eu quisesse, mas ao mesmo tempo não. Vou assistir um pouco e depois tento novamente. ”
Caminhando em direção ao quarto, a garota soltava aquela baforada com aroma de derrota, mesmo sem ter começado a tentar. Se jogava na cama, assistia um ou dois episódios de qualquer coisa e depois abria o documento em branco novamente. Mas e aquela matéria que ela esqueceu de terminar de ler? E aquela pessoa que ela queria stalkear no Facebook? E o Instagram que nem tinha sido aberto há duas horas? Ela tinha muito para fazer, avisei a ela. Escrever podia esperar. Ela nem estava tão inspirada assim. Porque não jogar horas da vida fora fingindo que se faz muito quando nada está feito? Porque não se destruir com comparativos entre si mesma e o resto do mundo? Porque não enjoar de todas suas coisas? Porque não achar que tudo que não é seu é mais bonito? O que é bonito? Você que não é.
E esse é meu trabalho, não preciso ter nome, preciso apenas existir. Faço as pessoas vagarem por aí nesse mundão virtual e esquecerem dos que as cercam. Faço elas desejarem curtidas no Facebook com seus posts cheios de ódio ou vulgaridade. Faço elas sonharem com o dia em que serão lindas como as garotas do Instagram. Esvazio qualquer possibilidade de atividade construtiva nessas mentes atordoadas que desejam brilhar.
Como me deter? Não irei contar. Mas eu sei que no fundo, não há quem queira se livrar de mim. Sou justificável para suas fraquezas e falhas. E quem não gosta de uma boa desculpa, não é mesmo?