amor

Penumbra

Amargurado o canto preso em minha garganta
Que não sai em forma de notas
Mas desce com a saliva áspera
Em meio ao escuro e o clarear.

Lascívia ávida, o meu penumbrar.

A lentidão do tique taque nos corredores
Me traz remotos pavores
Que há tanto eu não queria buscar.
Busco pela teimosia
E anseio pelo pouco de dor
Que esse amor irá causar.

Passa a dor e o amor fica
Fica com essa ausência de tudo que é esse nada
Quando não tenho o sabor do seu olhar.
Tenho fome de ti, fome de seus olhos famintos
Olhar de lobo ao luar.

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Ressonâncias

Lá é sempre lá
Mesmo que se confunda ou misture
Com qualquer outra nota
O lá é especial e melancólico
Assim como o lá que não é aqui

Aqui
A tristeza da nota insiste em permanecer
Pairando no ar, me tirando para dançar
Não quero dançar aqui, somente lá

Porque tão triste, heim, lá?
Me ensinaram há tempos
Aqui na frente desse mesmo portão enferrujado
Os sentimentos de cada nota
Dedilhando lentamente
Descrevendo
Recitando
Cantarolando

Quando chegou sua vez
Não foi preciso dizer que você era a tristeza
Porque ela imediatamente
Se instalou no meu coração
Eu gosto de sentir você
Eu gostaria de tocar você

Quero te tirar do ar e te pegar pra mim
Porque me compreende

Somente um pouco de lá em mim
Iria tragar a minha tristeza para seus pulmões aflitos
E depois soltar como fumaça para o céu
E então,
Depositaria em seu lugar a ressonância harmônica de paz

Como pode uma nota triste trazer alegria?
Tristeza entende tristeza, veja bem
Um pouco de lá aqui, e então eu fico bem.

Soneca

No balanço de fora e interno, me perco nos flashes. Deixo que o filme prossiga rodando no vidro da janela embaçada, sumindo, voltando. Saudades. Soneca.
Numa delas, acordei em seus braços. Dormi para te encontrar rápido, acordei pra não esquecer o gosto, e foi tão bom que várias delas vieram.
A gente quer transar pela incerteza, se beijar pela distância, se abraçar pela saudade e se amar pela força de fazer tudo o que parece ser tão difícil ser a coisa mais certa dia após dia.
Escolha ou destino.
Eu escolhi abrir os olhos para ver os seus, e fechá-los para te sentir melhor. O destino fez com que essa escolha fosse possível.
Na soneca de hoje, não durmo para o tempo passar logo. Durmo porque estou tranquila, te vendo observar o mundo pela janela ao meu lado, suspirando profundo em chamado dos sonhos.

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O vôo

– Mas querida, porque tanta raiva em teu peito?

– Sinceramente doutora, não foi falta de esforço para detê-la. Ela volta. Assim como Maria, ela jogou suas migalhas pelo caminho. Sempre me encontra. Pode me receitar algo?

– E você sabe me dizer o que odeia? Já parou para pensar a respeito?

– Eu odeio sentir. Odeio essa energia ao meu redor, tão vívida. Entra pelo meu nariz e sai pela boca ou vice-versa. Entope meus poros, me entorpece as ideias e escurece minha vista. Eu odeio sentir. E eu sinto tanto! Sinto a vida, essa energia desgraçada circulando em volta de mim. Em volta de tudo. Caminhadas sutis e cavalgadas. O nascer podre e lindo das coisas. A morte súbita, efêmera, tosca, mas acima de tudo bela. A dor me corrói, doutora. Pode me receitar algo?

– Não acho que seu caso tenha a ver com remédios, querida, não é isso que vai te curar. Você me disse que consegue fazer a dor sair por um tempo. Como faz isso?

– Por transferência.

– Perdão?

– Transferência. Rasgo minhas pernas. Grito até minha voz atravessar paredes. Espanco. Arranco flores e corto fora suas pétalas mais bonitas. Movo a dor de um lugar para o outro, para um que doa menos, de preferência.

– Acredito que devemos agendar mais algumas sessões. Tenho um método para testar com você. Afinal, não é bom querer se livrar de seus sentimentos porque…

– Eu já sei o que vai dizer. Não, obrigada. Não quero outra sessão, eu quero algum medicamento. E não quero sentir as coisas belas também. Não quero sentir mais nada. Não quero sorrir quando vejo o sorriso dele, porque quando ele vira as costas isso dói muito mais. Quando se elimina os sentimentos, as expectativas vão embora junto. Elas são o pior mal. É preciso erradicá-las.

– Você se tornaria um robô. Consegue entender que sentir faz parte de sermos quem somos? Você realmente acredita que se fosse vazia seria melhor?

– Acredito que sim. Ninguém mais iria sofrer por ter que aguentar meu amor despejado sobre eles. Meus sonhos. Meus sorrisos. Eu iria falar o necessário. Fazer o que tinha que fazer. Se as pessoas fossem embora, tudo bem. Se ficassem, tudo bem. Tudo bem. Eu só queria que ficasse tudo bem, igual é para o resto das pessoas.

– Você é uma pessoa. É exatamente como elas. Como eu, como todos nós. Só não acredita nisso.

– Então quer que eu acredite que exista controle pra isso que carrego no peito? Isso é demais. Isso sim é loucura, doutora. Isso aqui é dominante. Vem antes de qualquer pensamento controlador e devasta tudo até não sobrar mais nada pra controlar. As pessoas não sentem isso. Elas não sabem o que é isso. Tá tudo bem com a vida delas, tá tudo fluindo conforme o curso natural das coisas. Minha vida é um rio cheio de pedras. Não flui nem nunca fluiu. E dói ver que nunca serei como eles. Você não vai ligar para um psiquiatra mesmo? Eu preciso tomar algo doutora, eu preciso…

– Se você acreditar que é impossível, assim será. O que você precisa tomar é o controle da sua mente, te fazer enxergar que é tudo questão de ponto de vista e então se deixar guiar por um ponto de vista melhor.

– Bom, então é assim que vocês resolvem os problemas de vocês? Mudam fatos? Fatos não são fatos se podem ser mudados. Você já conseguiu desligar a gravidade também por não querer acreditar nela?

– Senhorita…

– Não importa. Eu sei o que eu sei. Os sentimentos precisam ser correspondidos para que as coisas felizes aconteçam. Ninguém ama como eu amo. Ninguém sofre como eu sofro. Ninguém sente como eu sinto. Ninguém vive como eu vivo. Logo, tudo isso aqui não faz o menor sentido. Se eu simplesmente desvanecer, em um pestanejar tudo estará sereno novamente. Pois é assim que o interior dessas outras pessoas são. Confusão mágica, que basta um pensar e arruma-se. Todos filhos de Harry Potter. E eu, mera sangue-ruim. Nada flui aqui. Nada flui aqui e nem irá fluir. Sabe porque? Você consegue ver? Ei, olhe pela janela… nada flui, nada flui e….

– Senhorita, mantenha-se sentada por favor e não arranhe mais seu pescoço. Preciso que compareça ao psiquiatra, irei agendar a visita para você. Alô, doutor Fernandes? Tudo bem sim, obrigada. Estou com uma paciente em crise e…  EI! Não faça isso, estou conseguindo seus remédios…

– A vida é feita de extremos pelo que vejo, doutora. À beira de que mais preciso chegar para conseguir as coisas que quero?

– Senhorita, acalme-se por favor. Coloque essa cadeira no chão, não quebre mais nada, daqui você irá imediatamente para uma consulta com seu novo psiquiatra e…

– Tudo bem. Eu não quero mais. Você tinha razão, não são remédios que vão me curar. Remédios não mandam nada embora, pelo contrário, eles prendem. Eu já descobri afinal o porque dessa dor sem fim. Eu não nasci pra fluir porque quem flui é rio. Eu tenho asas e irei voar.

– …

– Alô? Alô? Doutora Migelani?

– …

– Alô? Doutora? O que foi esse barulho todo? Está tudo bem aí?

– Nada doutor. Apenas outro pássaro que fugiu pela janela de encontro a prometida liberdade. Só que asas quebradas não voam.

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Mente vazia, oficina do diabo

Meus pensamentos vão
E novos pensamentos não tão meus assim
Assumem seus postos
Na velocidade da luz.
Luz que não clareia
Mas que me ensurdece
Que me estupra todos os dias.
Sou invadida e penetrada por tudo isso que não é meu
Que não quero em mim
A dor é sem fim.
Me rendo
Com os braços abertos ao vento
Implorando para que ele me vente daqui
Para que eu me reinvente então.

Nova moldagem, novos padrões
Novas dores, novas decepções.
Os pesadelos são intermináveis, no fim.

Muda de lugar tudo o que te incomoda
E repara o tempo passear
Ir e voltar
Trazendo no bolso o incômodo
Do novo, que velho já se tornou.

Sou efêmera
E me sinto poeira passando por tua vida
Ferindo seus olhos cinzas
Tão cinzas quanto as tardes que entre prantos eu já vivi.

Labirintos

Gotas sincronizadas de chuva lá fora, tempestades dentro de mim.

Essa bagunça que insiste em se bagunçar
Mesmo quando eu arrumo
É a dor de todos os dias.
Eu fecho os olhos esperando o momento passar
E ao abrir tudo está prolongado e fundido.
Gotas que ardem ao cair
Que tremem no chão com o respingar.
O escorrer é tão lento que nem vi parar.
A tristeza que reflete no espelho é a mesma de ontem
E se o caminho é escuro, será a mesma de amanhã.
A luz que me conduz às vezes fraqueja
E me faz estar perdida em labirintos
Que eu já deveria conhecer tão bem.
Acabo na cama, onde tudo começou.
A morte acompanha cada bocejar
Só esperando eu dar um sinal.

Um sinal fraco qualquer de que já não acredito mais.
De que não irei conseguir.

Corrompida e com as arestas roídas
Só me resta inspirar todas as incertezas
Que acumulei no decorrer da vida.
Se desistir significar não estar ao seu lado um dia,
Prefiro continuar.
Mesmo sem saber se estarei ao seu lado amanhã.
E se meu peito já não tiver forças de respirar,
Ainda assim,
Eu ainda escolheria dar meu último suspiro em seus braços,
Em silêncio,
Ao contemplar o céu e o infinito no seu olhar.

Ninho de ossos

Magrela que sou
Me convenci de que não tenho colo a oferecer
Mas você vem de mansinho entre a escuridão da noite
E repousa em meu peito.
Em meio aos ossos
Vejo que a paz está onde está o amor.
Nesse ninho de gravetos seu coração se aquieta
Seu corpo se espalha no meu
Te observar me faz sorrir.
Meus dedos se perdem entre seus cachos
E meu bem, eu acho
Que não quero partir.
Irei me fundir nos lençóis e me expandir até o colchão
Para garantir então
Que sempre venha até mim
Quando procurar descanso.