Soluços Embriagados

Não sei se é psicológico, mas a cerveja cria ambientes literários.
Naquelas tardes de final de mês em que o dinheiro não é suficiente para me fazer ir até um bar e escrever sentindo a brisa noturna, junto meus trocados e compro latinhas de uma cerveja qualquer. O luxo da escolha já não existe.
Meu caminhar é curto e rápido até a cama e meus dedos encontram o caminho até o teclado sujo que dá vida à minha dor. Meus ouvidos são inundados pelo som da latinha que abro e uma infinidade de coisas pessoas lugares passa por mim e some. Eu fecho os olhos para o primeiro gole, e sinto o gosto descer. O amargo que varre minha voz garganta abaixo e toma meu fôlego. A espuma que me arrasta até o mar. A tontura que causa o desespero.
Eu imagino o boteco, as putas, os mendigos… Mas não. Não são frutos da minha imaginação. São lembranças.
Eu preciso lembrar que lá fora há um sofrimento diferente encostado em cada poste dessas ruas, e tomo todos para mim, aqui. Diretamente no conforto da minha cama, de frente para uma página em branco. O esboço vira página, a página vira capítulo e o capítulo vira solução.
Um soluço embriagado eterno, cravado com minhas próprias unhas em qualquer criação.

Cansaço

Corpo pendurado de costas flutuando em meio ao nada. Corpo que gira e bate contra a parede. Corpo, aquele flagelado que goteja sobre as cabeças abaixo. Cabeças que olham em frente, para os lados, para baixo, mas nunca para cima. Paralelo. Corpo paralelo ao meu próprio, divisão mal feita de mim. Cópia. Cópia. Cópia. Sim, você sabe da onde vem isso, mas não tenho o direito de mencionar.
O corpo que pende é minha mente já cansada. As pessoas que seguem nunca notam notas, nunca anotam cores, nunca sentem gotas. O cansaço é extremo e levou embora minhas forças para gritar. Eu queria pedir socorro, eu tento me balançar, mas a gravidade nunca volta. Apenas a dos problemas. Essa nunca se vai.
As pessoas continuam andando mesmo que eu esteja incapaz de fazer o mesmo. Eu observo, eu noto e anoto e sinto. Eu quero interferir. Cortar a corda invisível que prende meu eu criativo na caixa escura e então meu corpo voltaria a terra, meu caminhar seria suave e eu poderia levitar quando quisesse. Sonhar é bom, mas apenas quando se está dormindo. Sonhar de olhos abertos é exaustivo, doloroso. Criar enquanto a realidade está presente desanima, porque nada poderá dar certo. Nada vai dar certo.
Essa angustia matinal arruína meu estomago, desce feito café. Bate forte, sobe e volta. Eu quero a receita para ser menos pessimista. Estou cansada de ser o bolo que não dá certo, aquele feito de qualquer forma. Quero trabalhar duro pelo que acredito e ser realmente boa no que faço, quero que em algum momento as palavras estejam tão em sincronia comigo que eu já não precise mais de toda uma preparação psicológica para sentar e escrever um paragrafo qualquer. Elas virão até mim. Me pertencerão, assim como sou delas e talvez elas nem sequer saibam.
Os problemas diários costumam sugar toda minha energia, e é nisso que fico pendurada sobre todo o resto do mundo. Enquanto todos seguem para as resoluções, eu sempre estou estagnada. Esse pé enterrado na lama faz eu me cansar da minha própria presença e aí vem a inveja. Eu me canso também das outras presenças, e então vem o ódio. O que não entendo é ver esses sentimentos ruins tomando conta de mim e nem mesmo esse peso todo é suficiente pra me fazer cair. Eu preciso dos pés no chão. Eu preciso de estabilidade.
Quero tocar a terra e sentir meu corpo envolto a poeira. Sentir a areia em meus pés. Tocar as folhas e troncos e sentir que faço parte de tudo isso. Que com o passar dos anos, meu corpo também criou sua casca e que hoje estou pronta para dar bons frutos. Semear, colher, fitar. Fitar um horizonte todo aberto a minha frente e entender que posso andar para onde eu quiser, sabendo que o amanhã me pertence. Por enquanto tenho o hoje, e o hoje não me basta.
Todos dizem que eu deveria aproveitar o presente, fazer o melhor com o que eu tenho nas mãos agora. Não há nada, porque tudo que pego me escapa. Eu preciso do pertencimento. Eu preciso da garantia de que o meu nada de hoje será alguma coisa amanhã, e depois… E depois.
Pra quem nunca teve nada, o medo da inércia é constante. As vontades são gritantes e a gente quer se agarrar nos braços da felicidade e não soltar mais. Às vezes a felicidade não gosta da gente, às vezes a vida não está ao nosso favor. O bom é que nada disso importa, já me acostumei com a falta de sorte e amor. Continuo seguindo insistente, esperando que alguém mais forte que eu consiga me puxar. Esperando que esse meu jeito sofrido de sempre acabe cativando, ligando a gravidade novamente, para que eu não precise voltar a vagar.

De volta para as séries! O que assisti em 2016

Eu sei, eu disse que voltaria antes do ano acabar, mas acabei viajando para o sítio e não tinha vestígio qualquer de sinal, internet ou o que fosse. A gente reclama, mas acaba sendo ótimo dar um tempo dessas coisas e curtir o que está na nossa frente. Por mais que eu ame minhas séries, eu não queria ter voltado para a cidade. Ou pelo menos não tão cedo, né?
Depois que eu assisti Breaking Bad em 2013, passei por uma depressão pós-série danada. Quem me conhece sabe que essa é minha série preferida e sempre vai ser, ao lado de Friends. Não tem como escolher uma ou outra, até porque elas não têm nada em comum além de serem muito bem feitas. O que aconteceu nessa depressão pós-série foi que nada parecia bom o suficiente para mim, fiquei mais de um ano sem começar série nenhuma, focada apenas em animes e filmes e continuando apenas as séries que eu já assistia antes desse evento drástico, que eram Once Upon a Time e The Walking Dead (que por sinal, foram as duas séries que abandonei em 2016 e no final irei falar o porquê).

No começo de 2016, meu namorado colocou um episódio de Fringe para assistir comigo, sem compromisso. Só que eu me apaixonei completamente pelo enredo e personagens e acabou sendo a série que me trouxe de volta para esse mundo. Eu ainda não tinha voltado completamente, por exemplo, a arte de devorar séries estava fora de questão. Assisti num ritmo lento, por assim dizer, mas acho que foi o melhor a ser feito, já que não é uma série super leve e fácil de assistir. Terminei a quinta temporada agora em Dezembro, e já sinto saudades da Olivia, que entrou pra lista de personagens femininas fodas, por carregar uma força imensa e ainda assim saber ser sentimental. A série ganhou meu coração, e dou 5 estrelas para ela.
Logo que voltei para o mundinho Netflix também comecei algumas séries sozinha, e uma delas foi Friends. Essa é uma história engraçada. Tenho um amigo que sempre me falava de Friends e de como eu ia gostar e como era legal e como era isso e aquilo e eu apenas revirava os olhos e falava: “Cara, não vou gastar meu tempo para assistir uma série enorme igual Friends. TEM 10 TEMPORADAS COM MAIS DE 20 EPISÓDIOS CADA!!!!”
Quem me conhece também sabe que não costumo ter paciência para coisas longas. O que me fez mudar de ideia esse ano, foi passar tempo demais no tumblr (para quem quiser stalkear ou me seguir: a little bit bad ) e por lá sempre encontro muitos gifs de Friends. E eu gostava deles. Eu me identificava com eles. Principalmente com os do Joey sobre pizza ou qualquer outra comida. Eu reblogava eles. Então comecei a pensar “Meu, não tem como uma série ter tanto gif legal e não ser boa… Deve ser exatamente por isso que faz tanto sucesso e tem tanta temporada! Vou dar uma chance. Posso assistir sem compromisso, só quando der vontade”. HOW NAIVE! Na primeira temporada eu já estava apaixonada. Na terceira eu estava entregue. Quarta e quinta eu assisti em uma semana porque não me aguentei, eu tinha estabelecido que iria assistir uma temporada por mês, para garantir que eles ficassem um tempo considerável na minha vida, já que eu não tive a felicidade de ter os dez anos, mas nessas temporadas eu não consegui. Agora estou mais controlada, confesso. Só não terminei a série ainda por causa desse meu autocontrole, e nem preciso terminar para ter a certeza de que se tornou minha preferida junto com BrBa.
Nesse ano que se foi também tive a companhia de Scream, não aguento mais esperar a nova temporada por sinal! Eu sou fã de um gore com suspense no meio, então só imaginem minha felicidade ao descobrir essa série.
Também comecei Downton Abbey, estou apaixonada por essa! E comecei e terminei Land Girls e Black Mirror. Acho que estou na vibe de séries com temática antiga, guerra e afins. Enfim!

Agora, vou explicar porque abandonei Once Upon a Time e The Walking Dead. Quando algo começa a ficar longo demais mesmo tendo um enredo fechado e centralizado, fica exaustivo, a história se perde ou cria novos caminhos para seguir que nem sempre vai agradar quem começou a série por causa do tema central. Cada temporada tem um plot, mas esses precisam ter algo em comum, que ao juntar, faça sentido para toda a história. Once Upon a Time não soube lidar com isso, e sinceramente nem sei mais do que essa série se trata, o que os diretores querem passar. Está recheada de relacionamento sem graça (vulgo C$), coisas desnecessárias e a maioria dos personagens estão em pausa de evolução, simplesmente não crescem mais. Toda história precisa de uma progressão significativa, caso o contrario, não vai me prender. Essa série quebrou meu coração de várias maneiras, e me dói muito ter abandonado, deixado pra lá atores que eu gosto muito, mas melhor assim do que continuar perdendo meu tempo com algo tremendamente ruim.
Já em The Walking Dead, acho que fiquei cansada mesmo, faltou paciência. E saber que a série está longe de acabar não ajudou em nada. Nenhum motivo específico e também nenhuma frustração com os personagens, eu continuo amando zumbis, a Carol, Daryl, Michonne, Meg e Glenn (sdds). Apenas já deu.

E vocês, que séries fizeram parte de suas vidas em 2016? Quais farão esse ano? Quais serão abandonadas? Boa sorte na escolha!

Por hoje é só, e até a próxima dose!

LIVROS LIDOS EM 2016

Olá! Como vão os copos nesse final de ano? Espero que cheios. Pra variar andei sumida, parada nunca, mas sumida mesmo. Eu, vivendo dentro dessa cabeça meio doida acabei resolvendo passar uma porção de dias internada nas minhas séries e também andei desenhando e tentando aprender a lidar com a aquarela. Dei mais atenção para o meu livro, escrevi, decidi o rumo das coisas… Enfim, acredito que seja saudável sumir de tudo quanto é canto às vezes. O grande problema é que eu não sumo só às vezes não é hahah.

Mas hoje eu vim até aqui concluir as leituras do ano. Nesse post aqui eu planejei um pouquinho as coisas que eu estava interessa em ler, para quem não viu e quiser conferir é só clicar no link. Vamos ver o que eu consegui completar ou iniciar e o que fica para o famigerado 2017.

Literatura Brasileira – Li poucos livros nacionais esse ano, que foram 20 Anos de Poesia, Dom Casmurro, Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas, O Xangô de Baker Street, Impublicável e Passageiro da Linha Tênue. Vou falar rapidamente sobre cada um, la vai:
20 Anos de Poesia – Mario Quintana: É daqueles livros que você tem vontade de grifar várias frases e tirar fotos de várias poesias. Muito gostoso de ler, leve. Poemas separados por assunto.
Dom Casmurro – Machado de Assis: Nunca imaginei que eu fosse dizer isso, mas eu me diverti muito lendo. Acabei perdendo finalmente o meu preconceito, pois adorei o livro. Quanto a minha opinião, eu acho que a Capitu traiu sim o Bentinho, mas também não sei se sou confiável já que sou tremendamente ciumenta, hahaha.
Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas – Ni Brisant: Autor Independente, das quebradinhas aqui de SP. Sério gente, corram atrás de ler os livros dele. Ele tem uma escrita sensacional, bem gostosa mesmo. Esse que li é um livro com poemas.
O Xangô de Baker Street – Jô Soares: Uma versão brasileira muito bem humorada sobre Sherlock Holmes, a aventura não publicada dele. Me arrancou muitas gargalhadas e me diverti no processo de tentar encontrar o culpado. Pra variar, não consegui.
Impublicável – Gracco Oliveira: Quatro contos curtos bem contados, livrete feito a mão que consegui em um Sarau de poesia que eu fui.
Passageiro da Linha Tênue – Thiago de Freitas Peixoto: Livrinho de bolso com frases criativas e fotografias maravilhosas de pessoas no metrô ao fundo. Quando você folheia rapidinho, as pessoas estão em movimento. Incrível, bonito e bem feito. Também consegui no Sarau de poesia.

John Fante – Consegui pelo menos ler um, e escolhi o Pergunte ao Pó. Adorei, vi muita semelhança com os livros do Bukowski, que por sinal, fez o prefácio da edição que li. Ler um autor que é inspiração para um de seus escritores favoritos é uma ótima experiência, ainda mais pra quem escreve. Acho que lendo os dois, consegui entender o que é se inspirar, admirar algo e mesmo assim ter um estilo seu, não copiar nada. Quero poder ler mais livros dele no decorrer do ano que vem.

Percy Jackson e os Olimpianos – Finalmente terminei a saga! Eu estava vivendo uma maldição, nunca tinha terminado uma saga sequer. E para quebrar o feitiço, antes de terminar Percy Jackson eu resolvi terminar a primeira saga que comecei na vida, que foi Crepúsculo. E confesso que gostei, terminar de ler já adulto, algo iniciado na adolescência, revela muita coisa sobre nós. Mas voltando ao PJ, eu sofri e sorri muito ao terminar a saga. Foi muito mais incrível e surpreendente do que eu esperava. Eu lia achando que sabia exatamente o que ia acontecer e dava com a cara no poste quando as coisas eram reveladas. Adorei isso! Não sei se pretendo começar as sagas que vieram depois e que tem ligação com essa, pois não quero focar em sagas em 2017, já me basta terminar todas as outras incompletas. Mas essa ficou com o meu coração.

Livros no idioma original – Não consegui ler nenhum! Isso me chateia muito, até porque o valor deles costuma ser bem caro, e mesmo na Black Friday não encontrei nenhum dos que eu havia listado. Leitura transferida para o ano que vem.

Edgar Allan Poe – Também não consegui ler mais nada. Em uma feira de livros que estava rolando em um shopping aqui perto, encontrei um livro dele numa edição maravilhosa por apenas R$10,00 e eu não tinha um centavo no bolso, e eles não aceitavam cartão. Foi bem triste. Também transfiro essa para o ano que vem, e essa leitura vai ser uma das obrigatórias!

Fechei o ano com o total de 27 livros lidos e duas HQs. Considero pouquíssimo, mas tenho em mente que também aproveitei meu tempo me dedicando a outras coisas que gosto muito, e uma delas é séries. Estou preparando um post sobre esse assunto para amanhã, confiram! Para finalizar, vou deixar aqui a lista completa das minhas leituras do ano, para o caso de se interessarem. Indico todos eles, não me arrependi de nenhum!

• Coraline (HQ) – Neil Gaiman
• 80 Anos de Poesia – Mario Quintana
• Dom Casmurro – Machado de Assis
• O Xangô de Baker Street – Jô Soares
• Nota Falsa – Tolstói
• Cartas na Rua – Bukowski
• Mulheres – Bukowski
• O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio – Bukowski
• O Nascimento da Tragédia – Nietzsche
• Um Sussurro nas Trevas – H.P. Lovecraft
• O Tamanho do Céu – Thrity Umrigar
• Para Sempre Alice – Lisa Genova
• Mortal Engines –Philip Reeve
• Amanhecer – Stephenie Meyer
• A Breve Segunda Vida de Bree Tanner – Stephenie Meyer
• PC Siqueira Está Morto – Alexandre Matias (sim, eu li por motivos de: não foi o PC quem escreveu, e eu gosto dele e da sinceridade dele).
• Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas – Ni Brisant
• A Maldição do Titã – Rick Riordan
• A Batalha do Labirinto – Rick Riordan
• O Último Olimpiano – Rick Riordan
• Cidade de Vidro – Cassandra Clare
• Pergunte ao Pó – John Fante
• A Metamorfose – Kafka
• 23 Histórias de Um Viajante – Marina Colasanti
• Fino Sangue – Marina Colasanti
• Clube da Luta 2 (HQ) – Chuck Palahniuk
• Impublicável – Gracco Oliveira
• Passageiro da Linha Tênue – Thiago de Freitas Peixoto
• Deuses Americanos – Neil Gaiman

Por hoje é só, e até a próxima dose!

O vôo

– Mas querida, porque tanta raiva em teu peito?

– Sinceramente doutora, não foi falta de esforço para detê-la. Ela volta. Assim como Maria, ela jogou suas migalhas pelo caminho. Sempre me encontra. Pode me receitar algo?

– E você sabe me dizer o que odeia? Já parou para pensar a respeito?

– Eu odeio sentir. Odeio essa energia ao meu redor, tão vívida. Entra pelo meu nariz e sai pela boca ou vice-versa. Entope meus poros, me entorpece as ideias e escurece minha vista. Eu odeio sentir. E eu sinto tanto! Sinto a vida, essa energia desgraçada circulando em volta de mim. Em volta de tudo. Caminhadas sutis e cavalgadas. O nascer podre e lindo das coisas. A morte súbita, efêmera, tosca, mas acima de tudo bela. A dor me corrói, doutora. Pode me receitar algo?

– Não acho que seu caso tenha a ver com remédios, querida, não é isso que vai te curar. Você me disse que consegue fazer a dor sair por um tempo. Como faz isso?

– Por transferência.

– Perdão?

– Transferência. Rasgo minhas pernas. Grito até minha voz atravessar paredes. Espanco. Arranco flores e corto fora suas pétalas mais bonitas. Movo a dor de um lugar para o outro, para um que doa menos, de preferência.

– Acredito que devemos agendar mais algumas sessões. Tenho um método para testar com você. Afinal, não é bom querer se livrar de seus sentimentos porque…

– Eu já sei o que vai dizer. Não, obrigada. Não quero outra sessão, eu quero algum medicamento. E não quero sentir as coisas belas também. Não quero sentir mais nada. Não quero sorrir quando vejo o sorriso dele, porque quando ele vira as costas isso dói muito mais. Quando se elimina os sentimentos, as expectativas vão embora junto. Elas são o pior mal. É preciso erradicá-las.

– Você se tornaria um robô. Consegue entender que sentir faz parte de sermos quem somos? Você realmente acredita que se fosse vazia seria melhor?

– Acredito que sim. Ninguém mais iria sofrer por ter que aguentar meu amor despejado sobre eles. Meus sonhos. Meus sorrisos. Eu iria falar o necessário. Fazer o que tinha que fazer. Se as pessoas fossem embora, tudo bem. Se ficassem, tudo bem. Tudo bem. Eu só queria que ficasse tudo bem, igual é para o resto das pessoas.

– Você é uma pessoa. É exatamente como elas. Como eu, como todos nós. Só não acredita nisso.

– Então quer que eu acredite que exista controle pra isso que carrego no peito? Isso é demais. Isso sim é loucura, doutora. Isso aqui é dominante. Vem antes de qualquer pensamento controlador e devasta tudo até não sobrar mais nada pra controlar. As pessoas não sentem isso. Elas não sabem o que é isso. Tá tudo bem com a vida delas, tá tudo fluindo conforme o curso natural das coisas. Minha vida é um rio cheio de pedras. Não flui nem nunca fluiu. E dói ver que nunca serei como eles. Você não vai ligar para um psiquiatra mesmo? Eu preciso tomar algo doutora, eu preciso…

– Se você acreditar que é impossível, assim será. O que você precisa tomar é o controle da sua mente, te fazer enxergar que é tudo questão de ponto de vista e então se deixar guiar por um ponto de vista melhor.

– Bom, então é assim que vocês resolvem os problemas de vocês? Mudam fatos? Fatos não são fatos se podem ser mudados. Você já conseguiu desligar a gravidade também por não querer acreditar nela?

– Senhorita…

– Não importa. Eu sei o que eu sei. Os sentimentos precisam ser correspondidos para que as coisas felizes aconteçam. Ninguém ama como eu amo. Ninguém sofre como eu sofro. Ninguém sente como eu sinto. Ninguém vive como eu vivo. Logo, tudo isso aqui não faz o menor sentido. Se eu simplesmente desvanecer, em um pestanejar tudo estará sereno novamente. Pois é assim que o interior dessas outras pessoas são. Confusão mágica, que basta um pensar e arruma-se. Todos filhos de Harry Potter. E eu, mera sangue-ruim. Nada flui aqui. Nada flui aqui e nem irá fluir. Sabe porque? Você consegue ver? Ei, olhe pela janela… nada flui, nada flui e….

– Senhorita, mantenha-se sentada por favor e não arranhe mais seu pescoço. Preciso que compareça ao psiquiatra, irei agendar a visita para você. Alô, doutor Fernandes? Tudo bem sim, obrigada. Estou com uma paciente em crise e…  EI! Não faça isso, estou conseguindo seus remédios…

– A vida é feita de extremos pelo que vejo, doutora. À beira de que mais preciso chegar para conseguir as coisas que quero?

– Senhorita, acalme-se por favor. Coloque essa cadeira no chão, não quebre mais nada, daqui você irá imediatamente para uma consulta com seu novo psiquiatra e…

– Tudo bem. Eu não quero mais. Você tinha razão, não são remédios que vão me curar. Remédios não mandam nada embora, pelo contrário, eles prendem. Eu já descobri afinal o porque dessa dor sem fim. Eu não nasci pra fluir porque quem flui é rio. Eu tenho asas e irei voar.

– …

– Alô? Alô? Doutora Migelani?

– …

– Alô? Doutora? O que foi esse barulho todo? Está tudo bem aí?

– Nada doutor. Apenas outro pássaro que fugiu pela janela de encontro a prometida liberdade. Só que asas quebradas não voam.

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Desdém

Vontade de escrever, vontade de sair correndo daqui. Correr dela, não sei o porquê. Por que eu correria? Pra quê ficar? A vontade vem e me pega de supetão, se deita sobre mim, me beija lambe morde me arranca pedaços e cospe de volta na minha cara. Esfrega. Esfrega por todo meu corpo o que afirma querer. É isso. A vontade existe, a vontade quer. Quer escrever?
Escrever pra quê, meu bem? Não se demore, vai-te embora, pula a janela e some, alcança a lua e fica no céu. Fica aí, meu bem. Vontades não são tão bem-vindas quanto parecem. Aquela batidinha na porta diz tudo, e com uma revirada de olhos vejo o começo, meio e fim. O som das folhas amassadas e caindo suavemente no chão.
PORCARIA. É isso que vou gritar. Dá pra ver os arranhões surgindo em minhas coxas e a dor subindo pela minha garganta que em breve estará engasgada de sangue. Já está. Essa vontade súbita, sanguinária, decadente que me mata e me enterra sempre que ouso tentar. Renascimento? Sim. Sempre. Mas as cicatrizes não somem nunca, estão aqui pra contar história. Há sempre uma história, hoje há. Mas sobre essa não ouso falar.

 
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Destinatário: ____

São Paulo, 13 de setembro de 2016

Hoje eu pensei em você.
Ontem também, mas hoje foi mais forte. Eu queria poder te ver.
Hoje eu preciso de coisas estáveis e rotineiras, se eu fosse te encontrar saberia exatamente o que iria acontecer. Você sempre foi previsível. Sempre, e isso te irritava demais. Eu previa tudo o que você ia sentir, falar, fazer e isso te transtornava. Mas fatos são fatos, e eu os tinha sobre você.
Há também outros fatos. Você foi um grande amigo, bom ouvinte e ótimo companheiro. Hoje, na mesa do bar sozinha, desacompanhada até mesmo da boa e velha cerveja, meus olhos varreram o salão na busca dos seus. Olhos pequenos, fechados e amigos. Não encontrei.
Tenho as memórias de você em mim, todas inteiras e intactas. E por isso me recuso a voltar ao passado. As memórias boas me confortam, mas as ruins são péssimas e doem demais.
Eu queria que essa carta chegasse a você, apesar de não querer que minhas palavras te machuquem. Talvez eu rasgue. Talvez os ventos que envio te contem quando se chocarem contra as costas da sua montanha. Meu voo não alça mais e nunca fui fã de escaladas, apenas para que você saiba. Sinto sua falta, sinto mesmo. Sinto muito, mas vou caminhando e não tenho hora para voltar.
Acho que eu só queria que soubesse que nunca houve alguém tão desfiltrado quanto você, e por isso houve um fim. Melhores conversas, risadas intensas, assuntos absurdos, comentários aleatórios, dores devastadoras. Sem filtro. Sem pudor. Estilhaços e socos espalhados em meio ao gosto amargo de todas as cervejas tomadas. Espelhos quebrados, realidade distorcida, palavras cortantes até mais que a navalha que muitas vezes cobiçamos e almejamos para o fim. Fomos nós. Clube da Luta sem sabão, sem revolução. Apenas o misto de amor e dor.
Sei que sempre pensou o pior de mim e que com o tempo isso apenas se agravou, mas deixo o lembrete de que vasos ruins não quebram. Quanto a mim, sou destroços. Os socos no estômago são os piores, e eles sempre voltam. Eu não.

Ps. Estou juntando o que te devo. São tempos difíceis, pra não dizer impossíveis. Mas que fique dito que quito minhas dívidas. Menos a com o demônio.

 

Um abraço amigo,
por mais frio que pareça.