Desdém

Vontade de escrever, vontade de sair correndo daqui. Correr dela, não sei o porquê. Por que eu correria? Pra quê ficar? A vontade vem e me pega de supetão, se deita sobre mim, me beija lambe morde me arranca pedaços e cospe de volta na minha cara. Esfrega. Esfrega por todo meu corpo o que afirma querer. É isso. A vontade existe, a vontade quer. Quer escrever?
Escrever pra quê, meu bem? Não se demore, vai-te embora, pula a janela e some, alcança a lua e fica no céu. Fica aí, meu bem. Vontades não são tão bem-vindas quanto parecem. Aquela batidinha na porta diz tudo, e com uma revirada de olhos vejo o começo, meio e fim. O som das folhas amassadas e caindo suavemente no chão.
PORCARIA. É isso que vou gritar. Dá pra ver os arranhões surgindo em minhas coxas e a dor subindo pela minha garganta que em breve estará engasgada de sangue. Já está. Essa vontade súbita, sanguinária, decadente que me mata e me enterra sempre que ouso tentar. Renascimento? Sim. Sempre. Mas as cicatrizes não somem nunca, estão aqui pra contar história. Há sempre uma história, hoje há. Mas sobre essa não ouso falar.

 
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Destinatário: ____

São Paulo, 13 de setembro de 2016

Hoje eu pensei em você.
Ontem também, mas hoje foi mais forte. Eu queria poder te ver.
Hoje eu preciso de coisas estáveis e rotineiras, se eu fosse te encontrar saberia exatamente o que iria acontecer. Você sempre foi previsível. Sempre, e isso te irritava demais. Eu previa tudo o que você ia sentir, falar, fazer e isso te transtornava. Mas fatos são fatos, e eu os tinha sobre você.
Há também outros fatos. Você foi um grande amigo, bom ouvinte e ótimo companheiro. Hoje, na mesa do bar sozinha, desacompanhada até mesmo da boa e velha cerveja, meus olhos varreram o salão na busca dos seus. Olhos pequenos, fechados e amigos. Não encontrei.
Tenho as memórias de você em mim, todas inteiras e intactas. E por isso me recuso a voltar ao passado. As memórias boas me confortam, mas as ruins são péssimas e doem demais.
Eu queria que essa carta chegasse a você, apesar de não querer que minhas palavras te machuquem. Talvez eu rasgue. Talvez os ventos que envio te contem quando se chocarem contra as costas da sua montanha. Meu voo não alça mais e nunca fui fã de escaladas, apenas para que você saiba. Sinto sua falta, sinto mesmo. Sinto muito, mas vou caminhando e não tenho hora para voltar.
Acho que eu só queria que soubesse que nunca houve alguém tão desfiltrado quanto você, e por isso houve um fim. Melhores conversas, risadas intensas, assuntos absurdos, comentários aleatórios, dores devastadoras. Sem filtro. Sem pudor. Estilhaços e socos espalhados em meio ao gosto amargo de todas as cervejas tomadas. Espelhos quebrados, realidade distorcida, palavras cortantes até mais que a navalha que muitas vezes cobiçamos e almejamos para o fim. Fomos nós. Clube da Luta sem sabão, sem revolução. Apenas o misto de amor e dor.
Sei que sempre pensou o pior de mim e que com o tempo isso apenas se agravou, mas deixo o lembrete de que vasos ruins não quebram. Quanto a mim, sou destroços. Os socos no estômago são os piores, e eles sempre voltam. Eu não.

Ps. Estou juntando o que te devo. São tempos difíceis, pra não dizer impossíveis. Mas que fique dito que quito minhas dívidas. Menos a com o demônio.

 

Um abraço amigo,
por mais frio que pareça.

Overdose

Me servindo de qualquer coisa que tape os buracos do meu ego
Já não me importa que esteja estragado.
Adoração vencida, ou desesperada
Me agarro ao desespero de querer ser amada.
Login feito aonde der pra fazer
Mas a vontade de viver continua encostada
Na prateleira mais alta da estante.

Ela passa e me quer
Tanto quanto o vento quer levar folhas para passear.
Não quer mais.

E eu desligo logo
Deslogo de mim ou máscara
Tanto faz.
Eu nunca soube diferenciar
Já que depois de tanta insistência em ser perfeita
A imperfeição me reveste e explode
Em mil reflexos nas partículas de ar.
Me vejo, me sinto, e sinto muito por não desvincular.
No dia em que o ódio acabar, a inveja estará submersa
E então um novo espelho se levantará.
Nele estará tudo nítido e negro
Por já não importar mais com o que minha casca parecerá.

02/15

Ao acompanhar minha mãe ao mercado em uma tarde, o sentimento de infância se agarrou em minhas pernas e me acompanhou durante todo o trajeto. Enquanto eu buscava as coisas que eu queria comer, ia passeando pelos corredores com olhos vendados pelo espírito do passado que me guiava. Era ali mesmo naquele mercado. Eu corria sozinha diretamente para a seção de brinquedos ou materiais escolares, empolgada pelo natal que chegava, e o novo ano na escola que se aproximava. Eu me imaginava tendo todos aqueles brinquedos, pensava em como aquilo me deixaria feliz, todas as tardes divertidas que eu teria brincando com os amigos na companhia dos meus novos bonecos. Provavelmente, alguma coisa ou outra eu pedia. Nem sempre eu ganhava. Mas quando ganhava, me contentava plenamente com o que me era dado. Além dos brinquedos, eu também passeava pelos corredores dos itens domésticos. Sempre gostei de utensílios bonitos, vasos de flores, taças brilhantes. Eu me via ali, em meio as coisas belas que eu gostaria de ter em casa.
Continuei meu caminho, esbarrando pessoas, olhando pessoas, quando eu vi um garotinho de mais ou menos quatorze anos que chamou minha atenção. Eu quis falar com ele. Eu quis conversar e ser amiga, e esse desejo era intenso, eu queria que ele me visse ali. Ele viu. Mas estava acompanhado da mãe, e seria um tanto estranho me aproximar assim. No momento em que pensei isso, recordei que um dos meus maiores hábitos de criança era fazer colegas por onde eu passava. Eu perseguia pessoas interessantes pelas lojas e mercados e arrumava qualquer coisa para puxar assunto. Eu não me importava se achavam estranho, ou se eu era espontânea demais. Eu queria, eu fazia. Entretanto, devia ter entre uma ou outra dessas pessoas que tentei ser colega, aquela que não quis. Aquela que sorriu torto e envolveu as pernas da mãe em um abraço. Aquela que nem sequer sorriu para mim.
Quando aquela nostalgia toda passou, vi que eu ainda gostaria de pedir um boneco de presente. Que eu gostaria de ter meu quarto cheio de ursinhos de pelúcia. Eu quis correr atrás daquele garoto e dizer oi e depois sair correndo, abraçar minha mãe, morrendo de vergonha. Também quis ter taças bonitas para brindar um feliz ano novo daqui alguns meses, não na casa dos meus pais, mas na minha própria casa. Quis ser criança mesmo sendo uma quase adulta. Quis ser adulta ao mesmo tempo que sou criança. Eu quis voltar lá trás, mesmo sabendo que eu não podia. Eu quis viver o passado no presente, sem saber se isso é possível. Eu tive medo. Eu tive medo de tentar ser agora o que já fui. O que sou agora? Caminho em direção dos anos que não vieram, e tento fluir junto com o rio. Vou me batendo pelas pedras, pego um desvio, tento virar peixe, tento sair da água. Olho para trás, mas percebo que por mais que eu queira, ir contra a correnteza é perda de tempo. Deixo meus ombros desmoronarem e suspiro fundo, tentando aceitar o que sou. Sou o que sou, sem nem ao menos saber. Não importa. O que importa é a construção do que está por vir e como vou me descrever daqui uns anos. Ser um adulto não é ter pregado na geladeira uma lista de sonhos com todas as coisas que eu quero ter, todas viagens que pretendo fazer e do ser humano que pretendo ser. Mas é sim, ter uma lista ao lado da cama de tudo que quis e não tive, de tudo que quis fazer e não fiz, de tudo que pensei que seria e não sou. Ser adulto é um acumulo de tristezas, sonhos mortos, desejos não realizados no passado e perdidos no presente. É uma lista de pesadelos. Ser adulto é ser o que não foi.

Introversão crônica

Estranho o sentimento de ainda me surpreender com quem eu realmente sou. Lembro da infância, eu sempre estava rodeada de crianças, tinha vários amigos, e quando chegava vizinho novo na rua eu era a primeira a ir puxar um assunto. Hoje, me deparei com esse ser completamente diferente que sou. Dificilmente me interesso em fazer amizades e na verdade, mal tenho conseguido manter as de sempre. Gosto de silêncio. Gosto da organização, da minha cama, chás, boa música e a companhia da única pessoa que eu nunca estou enjoada no mundo. Raramente sinto vontade de sair de casa. Sou outra pessoa mesmo, e aí me pergunto onde é que o meu eu da infância foi parar.
Nesse mundo cheio de tecnologias, podemos ter nossas dúvidas sanadas rapidamente, manter várias conversas ao mesmo tempo e me aproveitando disso, vira e mexe estou tentando ser uma pessoa ~popular~ . Mas no meio dessa loucura toda eu percebo que não me adaptei e talvez eu nunca vá.
Acho legal o fato da maioria das pessoas que eu conheço conhecerem várias pessoas pessoalmente e virtualmente, conseguirem manter conversa com todas elas no Whatsapp, serem populares na internet e ter uma vida badalada fora dela. Eu tenho meus amigos, virtuais ou não, e amo todos eles. Só que sinto que não estou adaptada a essa coisa de várias coisas ao mesmo tempo. Eu gosto de saborear uma coisa de cada vez. Aproveitar cada conversinha, estar entregue a ela. Eu não converso com meus amigos todos os dias e por isso quando estou conversando com um alguém, geralmente é só com esse alguém mesmo. No máximo, consigo manter um diálogo interessante com umas duas pessoas, eu acho. E há também esse fato “recém” descoberto de eu ser introspectiva. Eu sou meio assim sempre, mas há também as fases de introspecção, e elas são longas.
As pessoas me veem por aí curtindo e compartilhando coisas, mas nunca estou falando com alguém e sempre tem um amiguinho no vácuo em alguma rede social. Não é não gostar das pessoas ou não saber ter amigos. A verdade é que converso muito comigo mesma. Sempre tenho aqueles dias em que quero chegar em casa, colocar meu pijama, jogar no celular, ver vídeos, aprender alguma coisa, mudar minha ideia a respeito de algo, ou apenas ouvir música E SÓ OUVIR MÚSICA MESMO, porque é um momento sagrado pra mim. Uma das coisas que mais detesto é quando estou no meu mundo, sentindo os instrumentos, inserida na letra e alguém vem falar comigo. Pauso a música. Fico chateada. Fico mesmo, odeio conversar ouvindo música. É chatice minha, eu sei, mas acredito que todos os individualistas perdidos por aí vão concordar que todos nós temos alguma chatice do tipo. Não sei se ser filha única tem influência nisso, talvez.
Mas não tento mudar, nem quero. Gosto de ser assim. Mas talvez um dia eu mude, afinal, se surpreender com quem somos é algo que nunca irá parar. Quando achamos que nos conhecemos completamente, mudamos, e então temos que nos conhecer novamente. Não há uma idade, uma fase da vida em que seremos definitivamente algo ou que nossa construção de nós mesmos estará completa, porque os upgrades são feitos diariamente, e pelo resto de nossas vidas.

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DARIA

Por hoje é só, e até a próxima dose!

Tag literária: Escritores

Boa noite beberrões, ando meio sumida esse mês devido a uma série de problemas recentes que não estou com a menor vontade de falar sobre, e isso vem tirando completamente a minha vontade de socializar. Em compensação, pelo menos andei trabalhando no meu livro, graças a falta do que fazer. Consegui finalizar o primeiro capítulo (sim, ainda o primeiro mas para mim isso já foi uma grande vitória) e espero que meu ânimo volte em breve para que eu possa fazer uns posts sobre o processo da escrita ou pensamentos aleatórios sobre.
Enfim, essa semana acabei entrando aqui para dar uma olhada no que vocês andam ~sentindo~ e vi que fui indicada pela Mayara do blog Devaneadora de Ideias  para responder essa tag e me perguntei: Porque não? Vamos lá.

  • O escritor que te iniciou no mundo da leitura.
    Glorinha De Moura Novaes, escritora de E o Vento Levou… O balão de Joaninha. O primeiro livro que li sozinha, com três anos de idade.
  • Um escritor que te ganhou de volta e um que te perdeu para sempre.
    Não tive nenhuma decepção com os escritores que eu gosto/acompanho o trabalho, se não gosto de um livro acho isso bem normal, apenas penso que aquela história não é pra mim mas que pode ajudar muitas outras pessoas.
  • Um escritor brasileiro e um estrangeiro.
    Brasileiro, fico com Paulo Coelho por ter sido o primeiro que eu realmente parei para acompanhar as obras. Estrangeiro, Bukowski, por identificação de personalidade.
  • Um escritor “zona de conforto”.
    Paulo Coelho
  • Um escritor que você traria de volta dos mortos.
    Sem sombra de dúvidas o Ricardo Reis, tadinho. Tinha tanto medo da morte e aí vem o José Saramago e mata o coitado HAHAHA. Falando sério, Fernando Pessoa, meu preferido para sempre.

Não irei indicar uma galera específica, mas fica em aberto aí pra quem quiser fazer!

Por hoje é só, e até a próxima dose!

Compasso

Essa inquietação me mata
Minhas palavras estão gastas como os sapatos que parei de usar.
Não, não irei encostar meus dizeres
Minhas prateleiras abarrotadas de nada irão confirmar.
Sinto tudo, absorvo um pouco
E o que se deita entre essas linhas
É a dança do que vi
E do que quero mostrar.
Encosta teus sapatos também
E dança, meu bem.
Dança com as palavras que caem do céu
Gira na ponta dos pés o que está na ponta da tua língua.
E se curve para o que escorre de seus dedos para o papel.
Mas nunca, nunca ensaie o final.
Apenas solta a sua mão
E deixa que o final se apresenta sozinho.
É no acaso que as palavras certas nascem.