Soneca

No balanço de fora e interno, me perco nos flashes. Deixo que o filme prossiga rodando no vidro da janela embaçada, sumindo, voltando. Saudades. Soneca.
Numa delas, acordei em seus braços. Dormi para te encontrar rápido, acordei pra não esquecer o gosto, e foi tão bom que várias delas vieram.
A gente quer transar pela incerteza, se beijar pela distância, se abraçar pela saudade e se amar pela força de fazer tudo o que parece ser tão difícil ser a coisa mais certa dia após dia.
Escolha ou destino.
Eu escolhi abrir os olhos para ver os seus, e fechá-los para te sentir melhor. O destino fez com que essa escolha fosse possível.
Na soneca de hoje, não durmo para o tempo passar logo. Durmo porque estou tranquila, te vendo observar o mundo pela janela ao meu lado, suspirando profundo em chamado dos sonhos.

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Cansaço

Corpo pendurado de costas flutuando em meio ao nada. Corpo que gira e bate contra a parede. Corpo, aquele flagelado que goteja sobre as cabeças abaixo. Cabeças que olham em frente, para os lados, para baixo, mas nunca para cima. Paralelo. Corpo paralelo ao meu próprio, divisão mal feita de mim. Cópia. Cópia. Cópia. Sim, você sabe da onde vem isso, mas não tenho o direito de mencionar.
O corpo que pende é minha mente já cansada. As pessoas que seguem nunca notam notas, nunca anotam cores, nunca sentem gotas. O cansaço é extremo e levou embora minhas forças para gritar. Eu queria pedir socorro, eu tento me balançar, mas a gravidade nunca volta. Apenas a dos problemas. Essa nunca se vai.
As pessoas continuam andando mesmo que eu esteja incapaz de fazer o mesmo. Eu observo, eu noto e anoto e sinto. Eu quero interferir. Cortar a corda invisível que prende meu eu criativo na caixa escura e então meu corpo voltaria a terra, meu caminhar seria suave e eu poderia levitar quando quisesse. Sonhar é bom, mas apenas quando se está dormindo. Sonhar de olhos abertos é exaustivo, doloroso. Criar enquanto a realidade está presente desanima, porque nada poderá dar certo. Nada vai dar certo.
Essa angustia matinal arruína meu estomago, desce feito café. Bate forte, sobe e volta. Eu quero a receita para ser menos pessimista. Estou cansada de ser o bolo que não dá certo, aquele feito de qualquer forma. Quero trabalhar duro pelo que acredito e ser realmente boa no que faço, quero que em algum momento as palavras estejam tão em sincronia comigo que eu já não precise mais de toda uma preparação psicológica para sentar e escrever um paragrafo qualquer. Elas virão até mim. Me pertencerão, assim como sou delas e talvez elas nem sequer saibam.
Os problemas diários costumam sugar toda minha energia, e é nisso que fico pendurada sobre todo o resto do mundo. Enquanto todos seguem para as resoluções, eu sempre estou estagnada. Esse pé enterrado na lama faz eu me cansar da minha própria presença e aí vem a inveja. Eu me canso também das outras presenças, e então vem o ódio. O que não entendo é ver esses sentimentos ruins tomando conta de mim e nem mesmo esse peso todo é suficiente pra me fazer cair. Eu preciso dos pés no chão. Eu preciso de estabilidade.
Quero tocar a terra e sentir meu corpo envolto a poeira. Sentir a areia em meus pés. Tocar as folhas e troncos e sentir que faço parte de tudo isso. Que com o passar dos anos, meu corpo também criou sua casca e que hoje estou pronta para dar bons frutos. Semear, colher, fitar. Fitar um horizonte todo aberto a minha frente e entender que posso andar para onde eu quiser, sabendo que o amanhã me pertence. Por enquanto tenho o hoje, e o hoje não me basta.
Todos dizem que eu deveria aproveitar o presente, fazer o melhor com o que eu tenho nas mãos agora. Não há nada, porque tudo que pego me escapa. Eu preciso do pertencimento. Eu preciso da garantia de que o meu nada de hoje será alguma coisa amanhã, e depois… E depois.
Pra quem nunca teve nada, o medo da inércia é constante. As vontades são gritantes e a gente quer se agarrar nos braços da felicidade e não soltar mais. Às vezes a felicidade não gosta da gente, às vezes a vida não está ao nosso favor. O bom é que nada disso importa, já me acostumei com a falta de sorte e amor. Continuo seguindo insistente, esperando que alguém mais forte que eu consiga me puxar. Esperando que esse meu jeito sofrido de sempre acabe cativando, ligando a gravidade novamente, para que eu não precise voltar a vagar.

O vôo

– Mas querida, porque tanta raiva em teu peito?

– Sinceramente doutora, não foi falta de esforço para detê-la. Ela volta. Assim como Maria, ela jogou suas migalhas pelo caminho. Sempre me encontra. Pode me receitar algo?

– E você sabe me dizer o que odeia? Já parou para pensar a respeito?

– Eu odeio sentir. Odeio essa energia ao meu redor, tão vívida. Entra pelo meu nariz e sai pela boca ou vice-versa. Entope meus poros, me entorpece as ideias e escurece minha vista. Eu odeio sentir. E eu sinto tanto! Sinto a vida, essa energia desgraçada circulando em volta de mim. Em volta de tudo. Caminhadas sutis e cavalgadas. O nascer podre e lindo das coisas. A morte súbita, efêmera, tosca, mas acima de tudo bela. A dor me corrói, doutora. Pode me receitar algo?

– Não acho que seu caso tenha a ver com remédios, querida, não é isso que vai te curar. Você me disse que consegue fazer a dor sair por um tempo. Como faz isso?

– Por transferência.

– Perdão?

– Transferência. Rasgo minhas pernas. Grito até minha voz atravessar paredes. Espanco. Arranco flores e corto fora suas pétalas mais bonitas. Movo a dor de um lugar para o outro, para um que doa menos, de preferência.

– Acredito que devemos agendar mais algumas sessões. Tenho um método para testar com você. Afinal, não é bom querer se livrar de seus sentimentos porque…

– Eu já sei o que vai dizer. Não, obrigada. Não quero outra sessão, eu quero algum medicamento. E não quero sentir as coisas belas também. Não quero sentir mais nada. Não quero sorrir quando vejo o sorriso dele, porque quando ele vira as costas isso dói muito mais. Quando se elimina os sentimentos, as expectativas vão embora junto. Elas são o pior mal. É preciso erradicá-las.

– Você se tornaria um robô. Consegue entender que sentir faz parte de sermos quem somos? Você realmente acredita que se fosse vazia seria melhor?

– Acredito que sim. Ninguém mais iria sofrer por ter que aguentar meu amor despejado sobre eles. Meus sonhos. Meus sorrisos. Eu iria falar o necessário. Fazer o que tinha que fazer. Se as pessoas fossem embora, tudo bem. Se ficassem, tudo bem. Tudo bem. Eu só queria que ficasse tudo bem, igual é para o resto das pessoas.

– Você é uma pessoa. É exatamente como elas. Como eu, como todos nós. Só não acredita nisso.

– Então quer que eu acredite que exista controle pra isso que carrego no peito? Isso é demais. Isso sim é loucura, doutora. Isso aqui é dominante. Vem antes de qualquer pensamento controlador e devasta tudo até não sobrar mais nada pra controlar. As pessoas não sentem isso. Elas não sabem o que é isso. Tá tudo bem com a vida delas, tá tudo fluindo conforme o curso natural das coisas. Minha vida é um rio cheio de pedras. Não flui nem nunca fluiu. E dói ver que nunca serei como eles. Você não vai ligar para um psiquiatra mesmo? Eu preciso tomar algo doutora, eu preciso…

– Se você acreditar que é impossível, assim será. O que você precisa tomar é o controle da sua mente, te fazer enxergar que é tudo questão de ponto de vista e então se deixar guiar por um ponto de vista melhor.

– Bom, então é assim que vocês resolvem os problemas de vocês? Mudam fatos? Fatos não são fatos se podem ser mudados. Você já conseguiu desligar a gravidade também por não querer acreditar nela?

– Senhorita…

– Não importa. Eu sei o que eu sei. Os sentimentos precisam ser correspondidos para que as coisas felizes aconteçam. Ninguém ama como eu amo. Ninguém sofre como eu sofro. Ninguém sente como eu sinto. Ninguém vive como eu vivo. Logo, tudo isso aqui não faz o menor sentido. Se eu simplesmente desvanecer, em um pestanejar tudo estará sereno novamente. Pois é assim que o interior dessas outras pessoas são. Confusão mágica, que basta um pensar e arruma-se. Todos filhos de Harry Potter. E eu, mera sangue-ruim. Nada flui aqui. Nada flui aqui e nem irá fluir. Sabe porque? Você consegue ver? Ei, olhe pela janela… nada flui, nada flui e….

– Senhorita, mantenha-se sentada por favor e não arranhe mais seu pescoço. Preciso que compareça ao psiquiatra, irei agendar a visita para você. Alô, doutor Fernandes? Tudo bem sim, obrigada. Estou com uma paciente em crise e…  EI! Não faça isso, estou conseguindo seus remédios…

– A vida é feita de extremos pelo que vejo, doutora. À beira de que mais preciso chegar para conseguir as coisas que quero?

– Senhorita, acalme-se por favor. Coloque essa cadeira no chão, não quebre mais nada, daqui você irá imediatamente para uma consulta com seu novo psiquiatra e…

– Tudo bem. Eu não quero mais. Você tinha razão, não são remédios que vão me curar. Remédios não mandam nada embora, pelo contrário, eles prendem. Eu já descobri afinal o porque dessa dor sem fim. Eu não nasci pra fluir porque quem flui é rio. Eu tenho asas e irei voar.

– …

– Alô? Alô? Doutora Migelani?

– …

– Alô? Doutora? O que foi esse barulho todo? Está tudo bem aí?

– Nada doutor. Apenas outro pássaro que fugiu pela janela de encontro a prometida liberdade. Só que asas quebradas não voam.

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Melancolia (?)

Me disseram que eu ia morrer em agosto. Não duvidei muito por ser um mês melancólico e frio, a vontade de não sair da cama fica firmemente moldada em meus ossos e a chuva me faz pensar sobre o que é existir. O frio me faz companhia, me abraça e me faz tremer, aquele abraço gelado aquece e eu sorrio enquanto olho da janela. É uma vista maravilhosa essa, a da falta de movimento. Alguns carros passam aleatoriamente, passos molhados continuam seus caminhos apressados para chegar logo ao conforto do lar. Da cama. Do abraço de alguém amado. Do filme acompanhado de pipoca.
Esses passos são os mesmos que escuto pela manhã, mas em um ritmo diferente. Os pés se arrastam trazendo grudado ao calcanhar aquela sombra negra chamada preguiça. Aquela preguicinha boba que faz todos rolarem na cama quando o relógio toca e toca lá na alma a dor de ter que sair. Mas as pessoas saem, metidas em seus casacos e cachecóis tão elegantes e as mulheres caminham com os cabelos ao vento, irritadas por se sentirem feias e bagunçadas, mas mal sabem que essa é a bagunça mais linda que existe. Ao fim da tarde, pendurada na janela, vejo o dia adormecer. Os pincéis mágicos do universo começam o infindável trabalho de colorir o mesmo céu novamente, mas não com as mesmas cores e formas, porque o de ontem não se repete e o amanhã jamais será como hoje. O roxo se entrelaça ao azul claro que vai em degrade escurecendo, e na pontinha inicial violeta está o rosa, já se tornando salmão.
A xícara de chá fica entre minhas mãos cansadas, cansadas por terem segurado tanto tempo aquelas xícaras de café. As ideias se fundem entre as partículas do meu cérebro me fazendo acreditar que eu realmente sou eu. Eu sinto elas se movendo, partindo, voltando. Voltam modificadas e melhores, e então eu escrevo. Toda essa melancolia gostosa se acaba em uma frase infantil. De criança tenho muito e pouco, e muitas vezes me perco em minhas dimensões. Digo ser uma, mas o meu único é variável e a variação dos dias e das coisas que escuto me faz ter a certeza de que irei morrer num desses dias pavorosos de calor.
Esses em que a preguiça é intensa e arrebatadora. Causa feridas na alma que começam a apontar no rosto. A dor de estar viva é tanta que não basta chorar pelos olhos e então choro pelo corpo todo, meu cabelo perde o brilho, o gosto pela vida se esvai de qualquer fio de beleza ou esperança. Os passos são lentos seja para fora ou para dentro de casa, e os braços da pessoa amada se cansam rápido do atrito entre os corpos e então cada um fica em um canto, lutando para conseguir um pouco de ar fresco.
Ao abrir os olhos antes da hora prevista, a luz do sol passa entre o vão da janela indicando que o dia será difícil. A motivação é nula, as ideias são confusas, os passos vão aos tropeços em direção à coisa mais gelada presente, nem que seja um coração. E aí percebe-se que em matéria de amor, até no calor ele precisa ser quente, ao contrário do café. Gosto pra amor não muda, independente de clima. O corpo pede refresco mas a alma quer transbordar de frente para aquela combustão desenfreada de paixão. Se corpo e alma não se entendem, temos então um conflito que não será fácil de resolver. E a dor existencial só aumenta. O calor disseca a alma, queima a pele e qualquer possibilidade de algum neurotransmissor trabalhar corretamente.
De fato, o calor traz alegria para a maioria das pessoas e devido a esse relato meu, fica claro que o problema é comigo. Mas não há maneira de não achar incômodo a preguiça ser tão tolerável e humana no frio, mas no calor ser vista de maneira tão negativa. O corpo no frio quer apenas se aquecer e busca aconchego em tudo que seja afável aos olhos ou ao coração. No calor, me desmancho por uma cama para chamar de leito de morte, para nunca mais ter de suportar tal sensação novamente. É uma raiva peculiar. Observo tudo com meus olhos infelizmente vivos e vejo ao meu redor pessoas comemorando o dia de sol, lavando a roupa suja, saindo de suas respectivas casas e questionando a razão de eu me manter contínua e firmemente deitada.
Não, não quero olhar o sol. Não, não quero tomar sol. Não, não quero usar roupas curtas. Não, não quero ir até a praia. Não, eu não quero me mover, não me tirem daqui, não insistam. Meu corpo chora e minha alma clama, meu lugar é na cama e já não me importa mais sua definição de preguiça. Eu quero é o abrigo entre os braços daquele cujo esse maldito calor me roubou, quero aninhar-me nas minhas coisas, séries, bagunça, sentir o cheiro da chuva, molhar-me de amor e notar as lentes de meus óculos embaçarem com o vapor do meu chá, do café alheio, do achocolatado, não importa.
Não quero mais convites, mas convido a se retirar com toda a gentileza, verão. E­­­­­­­­­­sses tais convites recheados de alegria têm semelhanças com o abraço da morte, e se for pra morrer de calor, coloca-me num caixão e deixa queimar então.

Soldada

Soldada, não de chumbo. Soldada pelo cansaço que se agregava ao meu corpo; éramos como um só. Acordar e olhar para o céu com um sorriso nos olhos se tornava difícil já que o pesar era tão grande a ponto de me fazer enxergar tudo em preto e branco. No banco, aquele da mesma praça de todos os dias, eu sentava e me aterrava. Eu era uma com o banco também. Invisível, moldada por tudo que me cercava. Tudo de indiferente e tudo de negativo. Pessimismo, esse era meu pior e único amigo.
O tempo passava apressado, levando consigo tudo o que poderia mudar quem sou. Por entre aqueles dedos soava o tique taque, e o tiquetaquear levava os sorrisos que não dei, os passos que não caminhei. Trazer dores, trazia. Algumas reais, outras inventadas. Mas no final, que diferença fazia se tudo que me tocava doía? E era uma dor sem fim, sim. Um ciclo vicioso maldito, que me deixava cheia de hematomas, por dentro e fora. Se fora, pela janela, a esperança de um dia me sentir bem.
O que me fazia tão mal, você se pergunta. Não importa. Qualquer dor que for citada será diminuída. Porque meus problemas nunca serão tão grandes quanto os seus. Meu sangrar é banal enquanto o seu é real e dói.
A tristeza existe desde que o mundo é mundo, e a batalha contra ela é eterna. Houve dias em que eu, pisando nessa terra seca, senti que não precisava mais lutar. Com os pés firmes no chão eu estava agarrada a dor e teimava, dizendo que a dor era eu e eu era dor e nada mais. Nada nasceria e cresceria belo em mim. Podridão e derrota. Comodismo e preguiça. Morte.
Centrada em todas essas ideias, não me ocorreu que fui inundada.
A chuva cai, é bela e tem amantes. Mas quando não se ama mais nada sobre a terra, não se nota também o que cai do céu. Enquanto estive atordoada, não havia o sentir e o agir. Havia o nada morando em cada pedacinho de mim, até que a mudança chegou. A água me inundou vagarosamente e eu relaxei. O seco se transformava em algo diferente e macio, e toda aquela firmeza criada com o passar dos anos ia se desfazendo com o bater da água em minhas paredes. As rachaduras se fechavam e meu coração tinha em si o barulho do mar. Eu me entreguei e fui levada pelas ondas. Todos os tipos delas. Era prazeroso, como era! Sentimentos tão diferentes dos usuais, aqueles terrenos. Fui arrastada e não liguei, me acomodei. Eu queria ficar ali, imersa em sentir. Para sempre. Falhei. Com o tempo, fui me afogando nas emoções que me cercavam. Aquelas, que não existiam há um tempo atrás, agora estavam a me consumir. Emoções sentidas por mim, sentida por outros. Criadas por mim, criadas por outros. Eu ali, sem poder ver a luz, não sabia mais definir se o que eu vivia era real ou não. Desejei ter meus pés na terra novamente e jamais pisar em águas. Eu fui enganada.
Eu achava que tinha sido enganada, mas o que tinha acontecido foi que eu me enganei. Eu, como boa moradora de terras, achei interessante viver cercada de algo que fizesse eu me sentir viva, mas tudo que vem em excesso causa dor. E agora, eu queimava.
Como em uma explosão, fui expulsa do mar. E enquanto eu caia, sentia meu corpo ser consumido e em meu estômago habitavam borboletas em chamas. Como os apaixonados, eu me sentia preparada para voar com elas até que eu virasse cinzas, mas a dor não me permitia. Tão diferente dos apaixonados…
O cair parecia eterno e eu me sentia lava que escorre sem destino. Me sentia míssil sem alvo. Eu ia explodir em meio ao nada e de mim viria o que? Eu não era nenhum Big Bang. Minha cabeça turbulenta não me deixava encontrar soluções e o fogo se alastrava por dentro de mim como se eu fosse madeira, até que caí.
Um monstro de fogo havia tomado minha forma, e eu caminhava pela floresta em que havia caído, vagarosamente destruindo tudo ao meu redor. Eu olhava para o céu e podia ver as faíscas cintilantes flutuarem por cima de mim, que já não me sentia eu. Por onde eu andava? Terras estranhas, lugares vazios ou tão cheios de nada. Me perguntei porque estar viva podia deixar marcas tão profundas, e tentei me reconhecer. De solo seco, fui abençoada com chuva, onde algo em mim finalmente cresceu. Fui-me com a chuva e virei mar, onde tudo que era tão sublime me destruiu. Eu queria apagar. Sentei-me entre as flores e assisti a morte certa de todas elas. Fechei meus olhos combustíveis e apertei minhas mãos contra meu peito. Apertei fundo, como se estivesse cravando unhas em meu coração e o rasgando. Deixando exposta minha dor e talvez assim alguém pudesse ver e compreender o que havia dentro de mim. Isso, que nem eu poderia saber por inteiro, mas que me tirava o controle dias e noites. Deixei-me aberta ao mundo e assim algo poderia me salvar. E assim algo poderia me apagar. Eu gostaria de poder dormir em terra firme novamente mas sentir o frescor por dentro, como se em mim jorrassem as águas do mar que me limpariam de toda essa imundice que criei ou que depositaram em mim. Sentir-me lavada por dentro, mas ter em algum canto de meu corpo esse calor, essa energia para que me sentisse viva às vezes. Ser amiga do monstro de fogo, e se eu morresse, ele poderia me ressuscitar e eu seria a primeira fênix a voar pelos céus.
Lágrimas escaparam de meus olhos e por onde correram, o fogo foi se apagando. Eu sentia o alívio, a vitória. Os pedaços apagados sentiam-se livres.
E então, chorei como nunca.
Chorei, até que toda combustão se desfizesse. Chorei para me libertar. Tirei de mim aquele coração negro e empoeirado, e quando o recoloquei de novo já não era mais o mesmo. Queimava, batia de maneira voraz. Levantei-me e eu havia me transformado novamente. Meu corpo ali estava, mas era leve. Respirar era agradável. Olhar o céu com um sorriso nos olhos era possível. E quando a brisa tocou meus cabelos, eu soube que ela havia feito uma morada em mim. Me senti brisa, me senti chuva, senti meus pés na terra firme e o calor de uma vida em minha frente. Me senti possivelmente capaz de fazer o impossível. Me senti plena e feliz.
Eu havia ganhado a batalha, aquele dia. Mas não baixei a guarda, pois sabia que eu estava em guerra constante e me lembrava dos ferimentos, me lembrava das derrotas de alguns dias.
Soldada, sim. Eu havia me transformado em uma no processo da dor. De pé hoje, amanhã não se sabe. Amanhã não importa.

I see fire

A menina encostada na porta do bar me fazia pensar em como as coisas eram bonitas. Meus amigos na mesa do bar me faziam pensar que tudo era mais belo em silêncio. Quantas vezes eu esperara por um dia como esse. Um dia de chuva em que eu pudesse ficar sentado em um bar qualquer, jogando conversa fora e tentando conquistar quantas garotas eu achasse necessário. Um dia com os amigos vale ouro, eu dizia para mim mesmo.
Hoje não valia nada. Eu estava com meus fones de ouvido, imerso na música, comendo um frango e contemplando o céu cinza lá fora.
Hoje valia muito. Meus amigos pareciam um quadro de bruxo, se movendo lentamente conforme a música, sorrindo.
Era melhor assim. Era melhor do que escutar a conversa, essa noite. As palavras ferem, mesmo que eu tenha sido feito delas. O silêncio também era uma forma de interagir.
De repente, senti tudo contraditório. Me perguntei se eu realmente queria estar ali. Sim. Talvez. Eu preferia estar em casa. Não. Era exatamente ali que eu tinha que estar. Olhei para a porta de vidro e me vi refletido em forma de gelo e fogo. Os opostos sempre me construindo, e eu me sentia demolido por isso.
Olhei para a garota na porta. Ela parecia carregar o mundo consigo, e toda a beleza e força emanavam dela feito um perfume, que suavemente escorria de seus olhos. Por um instante, tudo que quis foi que o resto daquele boteco sumisse e restasse nós dois. Eu a diria como sua beleza era capaz de mover o mundo. Ela iria sorrir, e caminhar para dentro, por imaginar que sou um completo bêbado. Por sequer ter imaginado pessoas, inclusive meus amigos estúpidos. Por ter me imaginado ali naquela mesa de um bar completamente vazio.
Talvez tudo que ela quisesse era morrer se achando bela e única, capaz de mover o mundo com sua força, que ninguém nunca reconheceu. Apenas isso, enquanto ascendia um fósforo e o jogava contra o chão todo molhado de álcool e admirava as chamas crescendo ao seu redor.
Me perguntei se eu não podia ajudá-la, mas a resposta era óbvia. Eu nem sequer podia me dar o direito de dizer que existo, já que sou fruto da imaginação de uma garota solitária. Mas eu a olhava, e a via sorrir em volta do fogo como se ele fosse um velho amigo. As chamas se alastraram até mim, e queimaram meus braços. Senti dor. Vi então, que na cabeça daquela menina, eu era tão real quanto o fogo. Vi então, que eu podia salvá-la.
Atravessei as chamas, ela se virou e me estendeu suas mãos. Segurei-as, ela sorriu. Saímos caminhando junto com a chuva que iniciava, para acabar com o fogo que estava consumindo tudo que estava a sua frente, lentamente.
Ela estava segura. Era a única certeza que eu precisava ter. A chuva se acalmou, e um vento gelado soprou. Eu sabia que estava na hora de ir. Fui-me com os sopros gelados. Voltei para o lugar onde nasci: voltei para a imaginação. Mas voltei feliz, sabendo que eu poderia ser real se alguém acreditasse em mim com todas as forças. Descansei em paz, enquanto a garota, a minha garota, se deitava em sua cama e se preparava para esquecer do quão poderosa podia ser, se apenas acreditasse.

Sabotagem

Era outra manhã mórbida e eu me espreguicei desejando estar morta. Não por depressão, mas acredito que desejar essas coisas quando se acorda seja normal. Por questão de manter os hábitos, permaneci na cama durante um tempo, respirando levemente e considerando se eu estaria fazendo um bom negócio se resolvesse me levantar. Eu deveria escrever, mas um dia na cama me parecia agradável, ainda mais depois de uma semana tão exaustiva, mentalmente falando.
“Ficar na cama fazendo o que?” me perguntei. Eu poderia ler. Eu tinha realmente uma quantidade enorme de livros empilhados e toda vez em que eu tentava iniciar algum, não me batia o sentimento necessário para continuar a leitura. Meu interesse andava escasso. Não por eu estar com preguiça, mas acredito que seja normal não ter vontade de ler às vezes. Existe por aí, uma espécie que nunca gosta de ler. Não estou tão mal assim.
Peguei um livro e alguns minutos depois eu estava em meio a uma conversa frenética sobre produtos capilares com uma amiga, pelo celular. Desisti. Pensei que talvez fosse melhor eu cuidar da aparência do que tentar ler um livro sem estar com a menor vontade. Me sentei na cama, de frente para o espelho, decidindo por onde eu deveria começar. Tudo parecia tão errado naquele reflexo, que talvez eu levasse a vida inteira para arrumar. Deixei meu corpo cair para trás, e coloquei os braços sobre o rosto, me escondendo do mundo e de mim. Não que eu me sinta inferior, mas acredito que seja normal não se sentir atraente pela manhã.
“Talvez eu deva ficar por aqui mesmo. Posso escrever, irei escrever e não precisarei me preocupar se meu cabelo está bom, ou se ainda estou usando pijamas.” Eu estava esticando as pernas para fora da cama, quando lembrei que eu ainda não havia checado meu Facebook e nem o Instagram, como faço religiosamente todos os dias quando acordo e antes de dormir. Quando me dei conta, eu já estava achando a vida o fim, e me achando a pessoa mais feia do universo. Finalizada a missão das redes sociais, percebi que eu já podia me levantar.
O relógio marcava 14:30, e então –finalmente – criei coragem para dar sequência no que chamamos de rotina. Enquanto eu saboreava meu chá com limão, percebi que eu estava com muita saudade de escrever. Ali, sentada encarando minha xícara, eu me sentia um baú velho, cheio de palavras guardadas e empoeiradas, que gostariam de sair para tomar um ar. Para virar ar. Para viajar e tocar o cabelo das pessoas, e arrancar sorrisos bobos. Esse sentimento sempre existia, mas precisava enfrentar todos os outros que vinham vencendo a batalha durante o dia. Não só esse dia, mas muitos outros. Coloquei minha xícara na pia, e estava indo em direção ao notebook, quando um amigo me liga. O mesmo amigo de sempre, e não custava jogar um pouco de conversa fora, não é mesmo? Papo vai e papo vem, digo a ele que quero escrever.

– Escreva.
– Eu não consigo.
– Porque não?
– Eu não sei. É como se houvesse uma força maior me segurando.
– Ao menos tente. Vá lá e escreva agora.
– Tudo bem. Até depois.

Então resolvi lavar a louça. Depois da louça, organizar as roupas. Depois das roupas, dar um jeito no meu rosto. Depois da estética, ouvir música para acalmar. Depois de acalmar, comer para agitar.
Quando eu percebi o que havia feito, era um pouco de tudo e muito de nada. Me joguei na cama novamente, tentando entender porque eu passava tanto tempo fugindo do que eu deveria me entregar. Eu nunca entendia. Eu queria chorar. E chorei, por um curto intervalo de tempo. Não que eu estivesse triste, eu só queria compreender um pouco mais essa pessoa confusa que sou.
Fiquei deitada por um tempo, resmungando em silêncio. Minha mãe entrou no quarto e me disse todas as coisas que eu ainda tinha pra fazer. Respondi, ironicamente, que não poderia fazer nada, porque iria escrever. Ela fechou a porta dizendo que então tudo bem, que eu fosse escrever.
Não escrevi nada. Fiquei encarando o teto. E encarei por um longo tempo, mudando de posição na cama algumas vezes, vencida pelo tédio e cansaço. Até que veio aquela pontada no coração. Aquela batida na porta da minha casinha, em um ritmo nostálgico, de quando eu me sentia feliz. As rosas no vaso que ficava em cima da geladeira estavam murchas, mas ainda enfeitavam bem o lugar. Eu não estava de acordo com a cena. Eu estava fugindo do meu roteiro. Eu estava simplesmente me sabotando por completo enquanto o texto me dizia para viver com entusiasmo e ser feliz. Aí você me pergunta: “Que texto?”
Pois é, nem comecei a escrever ele ainda.