Relatos de um suicídio virtual

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As horas correm normalmente, a tristeza contínua partiu.
O ódio permanente de mim mesma deve morar em algum canto, mas já não tenho livre acesso a ele. Talvez eu me odeie só no subconsciente. Talvez eu não me odeie mais.
Não importa a hora que eu durma, eu irei acordar renovada. A energia corre como nunca pelo meu corpo e sinto vontade de fazer coisas inimagináveis. Eu não sabia que eu podia querer. Eu não sabia que eu podia conseguir. Eu não lembrava que eu poderia ao menos tentar e que se o fracasso me alcançasse ele nunca seria tão forte para me segurar para sempre.

Dois meses afastada das redes sociais. Sinto como se eu emergisse de águas limpas e claras todos os dias. Eu tenho levantado e feito coisas, pensado em coisas. Nada é perfeito e às vezes não me sinto tão produtiva quanto eu poderia estar, mas vou tentando. Ao menos tento. Sento e faço o que está ao meu alcance, forço o pensamento e tento ir longe.
Outra vez sei o que é degustação musical. Eu estou livre para deitar em minha cama e ir para outra dimensão, me deixo viajar para todos os universos que a música me fornece. E eu amo sentir. Eu amo como eu sinto arrepios, eu amo como posso sentir a dopamina correndo por todo meu corpo. Eu amo as lágrimas involuntárias que caem ao tocar do piano. O piano me toca.
Não posso dizer que tenho me importado mais com as pessoas, mas com toda certeza tenho me entregado mais as coisas. Tenho me entregado a mim mesma.
O minimalismo faz com que eu queira gastar meu tempo apenas com o que é necessário, indispensável, único e que me traz felicidade. Afável.
O respirar não pesa tanto e existir ainda é uma péssima opção, mas quero fazer com que isso se torne o menos pior possível.
A lembrança da abstinência parece uma ilusão. Não posso acreditar que senti falta de algo tão raso. Que fui possuida, controlada por uma força que sequer deveria existir. Há mais do que imagem. Eu sei que nos dias de hoje é difícil acreditar nisso, mas há mais. Há mais do que comprar e exibir e comprar e tirar fotos e comprar e deixar num canto e comprar. Há mais do que a masturbação desenfreada.
Não posso dizer que sei o que há tanto. Mas sei que há. Olhos antes vendados e machucados agora sentem-se livres para espiar por detras das cortinas. Eu vejo os bastidores. Há feiura e beleza como eu qualquer canto do mundo, mas sinto minhas pernas se moverem conforme o meu comando.
Agora eu sei que posso escolher para onde quero ir.

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Os dias que sucederam minha morte virtual se assemelhavam ao estudo de uma arquitetura complexa. Eu não entendia do que era feita e qual era meu propósito. Um vazio constante rondava meus pensamentos, tudo acabava em nada. Eu não sentia prazer em fazer nenhuma atividade, eu não sentia interesse. Era como se a conexão com a internet estivesse ruim o suficiente para atrapalhar todo o meu planejamento do dia, assim, me obrigando a gastar minhas horas com atividades como mangás, animes, livros e palavras cruzadas. Atividades não tão importantes e prazerosas quanto scrollar um feed qualquer. O sentimento de que a qualquer momento a internet voltaria estava entalado na garganta, e vira e mexe eu tinha que me lembrar de que eu estava isolada de tudo por escolha única e exclusivamente minha.

É incrível o poder de anulação que a tecnologia tem. Nada antes dela vale a pena, nada que não seja ela pode ser considerado bom.
E aqui estou eu, doente e descabelada beirando a loucura dos meus últimos e eternos dias de trabalho. Eu sempre quis dar fim na minha vida virtual, mas isso se agravou nos últimos tempos, depois que soube que seria mandada embora. Não me pareceu interessante ficar em casa bisbilhotando a vida dos outros, sem aproveitar nada, sem aprender nada. Decidi retomar alguma atividade gostosa que acabei abandonando por falta de tempo. Reconstruir hábitos.
O sentimento de estar desgostosa hoje, não dói. Eu posso estar entediada e sem amor em nada, mas pelo menos não tenho a obrigação de estar linda. Eu não vou postar nenhuma foto hoje, sequer irei tirar. Estou deixando ir embora a masturbação definitiva de ego. É só olhar alguns dias para trás e analisar o comportamento obsessivo por beleza. O prazer por se admirar ou o transtorno ao admirar outras pessoas e se odiar. Passar horas entendendo que sou um fracasso social por não ter aquela roupa, aquele tênis. Aquele olhar, aquela carisma. Agora nada disso importa. Eu nem existo mais. É estranho, às vezes gostoso e às vezes um saco.
Minha única rede social ativa é o twitter, e no momento ele tem se parecido com um cemitério de sentimentos. Entro lá e vejo que não sinto mais nada, que não tenho nada a dizer. O que eu preciso dizer tem que ser dito em outro lugar que não seja exatamente lá. O público me assusta. Algumas pessoas insistem em me cobrar atenção, mas elas não entendem que eu não estou nem aí. Eu raramente estou aí pra alguma coisa. Na verdade, ninguém está aí pra mim. Não estão aí pra nada. Primeiramente, as pessoas são uma catástrofe. Eu sou uma das grandes.
Quando começo a analisar esses meus traços de personalidade, questiono como é que eu fui acabar presa num lugar cheio de gente. Tudo foi pelo ego. Toda a minha destruição começou pela vontade de me construir. A batalha travada agora é contra o tempo, contra as rotas, contra as ideias. As velhas e implantadas ideias. Observo as pessoas ao meu redor e tudo com o que elas estão preocupadas é com o que vão comprar, vestir, parecer, quem vai ver. Eu também estava assim, é vergonhoso. Nós nos tornamos máquinas consumistas exibicionistas desenfreadas. Eu quero uma guerra. Eu quero caos, qualquer coisa que mude o curso que as nossas vidas estão tomando.
No momento, eu sigo tentando recuperar a minha humanidade. Reencontrar o tesão nas coisas. Conseguir tocar o véu mágico da existência nem que seja por breves segundos, mas todos os dias. Deslogar do efêmero. Me sentir confortável estando não-apresentável. Sentir ao menos por um segundo, que tudo bem eu não ser especial. O problema é que eu também não quero uma vida ordinária. Mas isso é conversa pra outro dia.