Poemas

Penumbra

Amargurado o canto preso em minha garganta
Que não sai em forma de notas
Mas desce com a saliva áspera
Em meio ao escuro e o clarear.

Lascívia ávida, o meu penumbrar.

A lentidão do tique taque nos corredores
Me traz remotos pavores
Que há tanto eu não queria buscar.
Busco pela teimosia
E anseio pelo pouco de dor
Que esse amor irá causar.

Passa a dor e o amor fica
Fica com essa ausência de tudo que é esse nada
Quando não tenho o sabor do seu olhar.
Tenho fome de ti, fome de seus olhos famintos
Olhar de lobo ao luar.

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Ressonâncias

Lá é sempre lá
Mesmo que se confunda ou misture
Com qualquer outra nota
O lá é especial e melancólico
Assim como o lá que não é aqui

Aqui
A tristeza da nota insiste em permanecer
Pairando no ar, me tirando para dançar
Não quero dançar aqui, somente lá

Porque tão triste, heim, lá?
Me ensinaram há tempos
Aqui na frente desse mesmo portão enferrujado
Os sentimentos de cada nota
Dedilhando lentamente
Descrevendo
Recitando
Cantarolando

Quando chegou sua vez
Não foi preciso dizer que você era a tristeza
Porque ela imediatamente
Se instalou no meu coração
Eu gosto de sentir você
Eu gostaria de tocar você

Quero te tirar do ar e te pegar pra mim
Porque me compreende

Somente um pouco de lá em mim
Iria tragar a minha tristeza para seus pulmões aflitos
E depois soltar como fumaça para o céu
E então,
Depositaria em seu lugar a ressonância harmônica de paz

Como pode uma nota triste trazer alegria?
Tristeza entende tristeza, veja bem
Um pouco de lá aqui, e então eu fico bem.

Canto aflito

Levanto  e canto
A voz é presa e rouca
O sentimento é solto
A melodia é pronta

O lápis aponta
A boca se cala e sento
Penso pensamentos pesados
A mão treme ao relento

Respiro e escrevo
Tento encontrar a força
Escrevo sobre desespero
Essa coisa guardada na bolsa

Carrego pra todo lado
Fecho o ziper pra não escapar
O fecho fica cansado
E grita que quer soltar

Solta logo a dor
Deixa a lágrima sambar
O samba triste de quem escreve
Quando na verdade se quer cantar.

Overdose

Me servindo de qualquer coisa que tape os buracos do meu ego
Já não me importa que esteja estragado.
Adoração vencida, ou desesperada
Me agarro ao desespero de querer ser amada.
Login feito aonde der pra fazer
Mas a vontade de viver continua encostada
Na prateleira mais alta da estante.

Ela passa e me quer
Tanto quanto o vento quer levar folhas para passear.
Não quer mais.

E eu desligo logo
Deslogo de mim ou máscara
Tanto faz.
Eu nunca soube diferenciar
Já que depois de tanta insistência em ser perfeita
A imperfeição me reveste e explode
Em mil reflexos nas partículas de ar.
Me vejo, me sinto, e sinto muito por não desvincular.
No dia em que o ódio acabar, a inveja estará submersa
E então um novo espelho se levantará.
Nele estará tudo nítido e negro
Por já não importar mais com o que minha casca parecerá.

Compasso

Essa inquietação me mata
Minhas palavras estão gastas como os sapatos que parei de usar.
Não, não irei encostar meus dizeres
Minhas prateleiras abarrotadas de nada irão confirmar.
Sinto tudo, absorvo um pouco
E o que se deita entre essas linhas
É a dança do que vi
E do que quero mostrar.
Encosta teus sapatos também
E dança, meu bem.
Dança com as palavras que caem do céu
Gira na ponta dos pés o que está na ponta da tua língua.
E se curve para o que escorre de seus dedos para o papel.
Mas nunca, nunca ensaie o final.
Apenas solta a sua mão
E deixa que o final se apresenta sozinho.
É no acaso que as palavras certas nascem.

Ela, a Inspiração

Ela tinha um caminhar lindo e eu sorri.

Atrapalhado que sou
Não permito que minhas pernas vacilem
Mas minhas palavras saem aos tropeços
Se quebrando ao chocar com as pedras
Se perdendo pelas esquinas.

Meu olhar saiu cuspido
Assim
De supetão.
Não sinalizei vergonha
Mas meu coração ruborizou.

Fruto da minha imaginação que me domina
Sobe em meu corpo e me usa
Essa moça que tanto me esnoba e quando passa
É passageiro por demais.

Te convido a pular minhas janelas
Ficar para um café
Ir para o banho, para a cama
Ir para onde quiser.

Suspirar ao te sentir é tão bom
Pena que tu já não podes avistar meu sorriso
Então deixo que o vento te entregue ao te encontrar
No dia que tu, moça, fores partir
Montada nas costas vastas do céu
Flutuando no ar.

(Às vezes escrevo no masculino, e falarei sobre isso em breve).

Mente vazia, oficina do diabo

Meus pensamentos vão
E novos pensamentos não tão meus assim
Assumem seus postos
Na velocidade da luz.
Luz que não clareia
Mas que me ensurdece
Que me estupra todos os dias.
Sou invadida e penetrada por tudo isso que não é meu
Que não quero em mim
A dor é sem fim.
Me rendo
Com os braços abertos ao vento
Implorando para que ele me vente daqui
Para que eu me reinvente então.

Nova moldagem, novos padrões
Novas dores, novas decepções.
Os pesadelos são intermináveis, no fim.

Muda de lugar tudo o que te incomoda
E repara o tempo passear
Ir e voltar
Trazendo no bolso o incômodo
Do novo, que velho já se tornou.

Sou efêmera
E me sinto poeira passando por tua vida
Ferindo seus olhos cinzas
Tão cinzas quanto as tardes que entre prantos eu já vivi.