Poemas

Overdose

Me servindo de qualquer coisa que tape os buracos do meu ego
Já não me importa que esteja estragado.
Adoração vencida, ou desesperada
Me agarro ao desespero de querer ser amada.
Login feito aonde der pra fazer
Mas a vontade de viver continua encostada
Na prateleira mais alta da estante.

Ela passa e me quer
Tanto quanto o vento quer levar folhas para passear.
Não quer mais.

E eu desligo logo
Deslogo de mim ou máscara
Tanto faz.
Eu nunca soube diferenciar
Já que depois de tanta insistência em ser perfeita
A imperfeição me reveste e explode
Em mil reflexos nas partículas de ar.
Me vejo, me sinto, e sinto muito por não desvincular.
No dia em que o ódio acabar, a inveja estará submersa
E então um novo espelho se levantará.
Nele estará tudo nítido e negro
Por já não importar mais com o que minha casca parecerá.

Compasso

Essa inquietação me mata
Minhas palavras estão gastas como os sapatos que parei de usar.
Não, não irei encostar meus dizeres
Minhas prateleiras abarrotadas de nada irão confirmar.
Sinto tudo, absorvo um pouco
E o que se deita entre essas linhas
É a dança do que vi
E do que quero mostrar.
Encosta teus sapatos também
E dança, meu bem.
Dança com as palavras que caem do céu
Gira na ponta dos pés o que está na ponta da tua língua.
E se curve para o que escorre de seus dedos para o papel.
Mas nunca, nunca ensaie o final.
Apenas solta a sua mão
E deixa que o final se apresenta sozinho.
É no acaso que as palavras certas nascem.

Ela, a Inspiração

Ela tinha um caminhar lindo e eu sorri.

Atrapalhado que sou
Não permito que minhas pernas vacilem
Mas minhas palavras saem aos tropeços
Se quebrando ao chocar com as pedras
Se perdendo pelas esquinas.

Meu olhar saiu cuspido
Assim
De supetão.
Não sinalizei vergonha
Mas meu coração ruborizou.

Fruto da minha imaginação que me domina
Sobe em meu corpo e me usa
Essa moça que tanto me esnoba e quando passa
É passageiro por demais.

Te convido a pular minhas janelas
Ficar para um café
Ir para o banho, para a cama
Ir para onde quiser.

Suspirar ao te sentir é tão bom
Pena que tu já não podes avistar meu sorriso
Então deixo que o vento te entregue ao te encontrar
No dia que tu, moça, fores partir
Montada nas costas vastas do céu
Flutuando no ar.

(Às vezes escrevo no masculino, e falarei sobre isso em breve).

Mente vazia, oficina do diabo

Meus pensamentos vão
E novos pensamentos não tão meus assim
Assumem seus postos
Na velocidade da luz.
Luz que não clareia
Mas que me ensurdece
Que me estupra todos os dias.
Sou invadida e penetrada por tudo isso que não é meu
Que não quero em mim
A dor é sem fim.
Me rendo
Com os braços abertos ao vento
Implorando para que ele me vente daqui
Para que eu me reinvente então.

Nova moldagem, novos padrões
Novas dores, novas decepções.
Os pesadelos são intermináveis, no fim.

Muda de lugar tudo o que te incomoda
E repara o tempo passear
Ir e voltar
Trazendo no bolso o incômodo
Do novo, que velho já se tornou.

Sou efêmera
E me sinto poeira passando por tua vida
Ferindo seus olhos cinzas
Tão cinzas quanto as tardes que entre prantos eu já vivi.

Labirintos

Gotas sincronizadas de chuva lá fora, tempestades dentro de mim.

Essa bagunça que insiste em se bagunçar
Mesmo quando eu arrumo
É a dor de todos os dias.
Eu fecho os olhos esperando o momento passar
E ao abrir tudo está prolongado e fundido.
Gotas que ardem ao cair
Que tremem no chão com o respingar.
O escorrer é tão lento que nem vi parar.
A tristeza que reflete no espelho é a mesma de ontem
E se o caminho é escuro, será a mesma de amanhã.
A luz que me conduz às vezes fraqueja
E me faz estar perdida em labirintos
Que eu já deveria conhecer tão bem.
Acabo na cama, onde tudo começou.
A morte acompanha cada bocejar
Só esperando eu dar um sinal.

Um sinal fraco qualquer de que já não acredito mais.
De que não irei conseguir.

Corrompida e com as arestas roídas
Só me resta inspirar todas as incertezas
Que acumulei no decorrer da vida.
Se desistir significar não estar ao seu lado um dia,
Prefiro continuar.
Mesmo sem saber se estarei ao seu lado amanhã.
E se meu peito já não tiver forças de respirar,
Ainda assim,
Eu ainda escolheria dar meu último suspiro em seus braços,
Em silêncio,
Ao contemplar o céu e o infinito no seu olhar.

Ninho de ossos

Magrela que sou
Me convenci de que não tenho colo a oferecer
Mas você vem de mansinho entre a escuridão da noite
E repousa em meu peito.
Em meio aos ossos
Vejo que a paz está onde está o amor.
Nesse ninho de gravetos seu coração se aquieta
Seu corpo se espalha no meu
Te observar me faz sorrir.
Meus dedos se perdem entre seus cachos
E meu bem, eu acho
Que não quero partir.
Irei me fundir nos lençóis e me expandir até o colchão
Para garantir então
Que sempre venha até mim
Quando procurar descanso.

“Só”

Me disseram que pra escrever eu só precisava ter bunda.

Tenho bunda
Estou sentada
Escrevo
Ou ao menos tento

Tentar vem do querer
Mas querer não é poder
As palavras são as bagunças mentais que decifro e organizo
Não tenho nichos
Fica bem solto assim
Dentro de mim
E pelos rios de minhas veias escorrem para o papel
Gota que cai do céu
Borra meus olhos e sangra na alma
Na cama
Em casa
De tarde
Relaxo
E então eu acho
O motivo que ainda tenho para viver.

Do sofrer não vem esperança
Porque da esperança nada vem
Além de um grito abafado da infância
Lembrança que não convém.