BOAS FESTAS!

      Ah, o clima de natal!

      Espio pela janela e sim, ele foi libertado. Ninguém sabe por onde o clima de certas coisas pessoas e épocas anda durante o resto do ano, mas de repente ele chega e o mundo muda. Ele contorna tudo de um jeito único. É como uma fumaça tóxica que envolve as pessoas e quando elas piscam já não são mais as mesmas. Há sorrisos, há esperança. Há palavras bonitas e positivas, há organização, planos, votos. Há comprometimento. Há criatividade e solidariedade.
Fecho as cortinas. Não quero saber de toda essa merda passageira. A única coisa que me envolve no momento são as lembranças de tempos em que eu também me sentia assim, que os sinos badalavam em meu peito e eu me metia em tudo que fosse evento natalino para que eu pudesse sentir meu corpo elevar com o toque mágico. Hoje eu estou um caco, não porque é dezembro, mas sim porque esse tem sido o meu estado natural. Todo o meu corpo lentamente introduzido no fogo ardente, me transformando em vidro, me moldando e esculpindo. Depois de pronta, a fragilidade flerta com o machado, que se sentindo totalmente convidado a destruir meu corpo, golpeia. Estilhaça. Cada célula agora é caco. Eu não os cato, não preciso. Eles estão grudados na minha pele, graças ao riacho de sangue de cada dia.
Não dá pra ficar lamentando muito, o tempo passa e a gente nunca faz nada. A gente levanta e olha para o passado, pensa no futuro, esquece o presente ou usa o presente para planejar o presente, algo conhecido como procrastinação, mas que em questão de segundos já virou passado também. Onde eu coloquei aquela calça?
Ah sim, coloquei para lavar. Ainda está suja. O terror de cada dia é ser obrigada a sair de casa vestida à contra gosto, mas saio. Saio atrasada, sem comer nada e o corpo suplica por atenção e cuidados. Normal. Totalmente normal. Carência física, emocional. As pernas vacilam um pouco e minha pressão cai, paro e respiro fundo por dois segundos e embarco na aventura de descer todas essas decidas até o metrô.
Na parede de uma loja, para o lado da rua, está uma caixinha azul e bonita. Nela está escrito “Boas Festas!” e eu me curvo para olhar dentro. A gente sempre acha que vai encontrar algo legal em algum lugar da nossa vida, algo que nos surpreenda e que faça o dia valer a pena. Uma profissão que não faça ser torturante levantar da cama, um relacionamento que nos foda como deve foder e nos cuide como deve cuidar. Mas quando olho para dentro da caixa, há uma bosta de cachorro partida em dois pedaços. Surpresa!!! Boas festas para você também. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas, mas ninguém disse se eram boas ou ruins.
Sigo o meu caminho. “O que eu posso fazer para que as coisas não me pareçam tão infelizes?” eu me pergunto. Começo a lembrar dos meus relacionamentos passados e tento buscar neles a sabedoria da duração. Como passei por tanta coisa chata com eles? As memórias me invadem lentamente e uma estratégia começa a se formar. Mas pera lá. Não, não é bem assim. Esse é outro relacionamento e isso que eu estou sentindo é algo completamente novo. Como vou resolver? Não posso simplesmente lidar com as coisas sozinha. Deve ser nesse momento que as pessoas desistem. As outras pessoas, eu não.
É que quando se pensa em desistência, já não há amor. Não há mais cumplicidade, não há mais sorrisos sinceros, não há mais verdades e nem respeito. Aqui, há tudo. Nada se perdeu. Porque o sentimento que paira em mim é esse que não sei nomear? Todo mundo ama se apaixonar e conhecer a pessoa, conversar sobre os mistérios da vida, universo e tudo o mais. Todo mundo ama os calafrios e a ansiedade gostosa que bate ao saber que irá encontrar a pessoa-alvo. Todo mundo gosta do começo, onde é possível acordar sorrindo por saber que não é um sonho que você está com aquela pessoa. É a realidade. É a sua realidade e ela vai continuar aí amanhã e depois, e depois e depois e por muitos dias, meses, anos. Isso soa entediante para você? Se sim, você pode largar essas páginas e ir ler qualquer outra coisa. Para mim, mesmo agora diante dessa nova fase da minha vida, isso não me parece nem um pouco chato. Eu sonho com todas as coisas que ainda quero fazer, todos os lugares que poderemos ir, todas as vezes que vamos cozinhar juntos, todos os filmes que vamos ver, todas as conversas que iremos ter, todas as transas sensacionais que continuarão a acontecer. É lindo.
Espero o metrô encostar na plataforma. Ele está decorado de vermelho, há um Papai Noel e renas e talvez um símbolo da Coca-Cola, a patrocinadora oficial do natal. Eu entro, e enquanto o vagão se move eu posso ouvir a música dos sinos pendurados nos pescoços das renas. Eu estou subindo. Lembro de todos os filmes com temática natalina que eu estaria assistindo desde o primeiro dia de dezembro até, finalmente, a noite de natal. Atualmente, tudo o que eu quero é apenas não ter que trabalhar no dia 24. Algumas pessoas me olham. Eu não sei interpretar o olhar delas. Não consigo fazer muita coisa além de botar as coisas que me incomodam em ordem, ou ao menos tentar. Está cedo demais.
Encosto o rosto contra a barra e me abraço nela, meu apoio e companhia de todas as manhãs das 9:15 até 9:20. As portas se abrem e eu desço na estação seguinte. É o mesmo trajeto de todos os dias por quase um ano e agora não consigo nem sentir aflição. Só a aceitação devastadora e tediosa. Eu caminho buscando algo novo, uma flor que não notei ontem, um grafite recente de um moleque que provavelmente não dormiu em casa essa noite, uma moeda. “Eu ainda gostaria de ter um natal branco”, digo mentalmente e sorrio para o nada. Sim, eu gostaria. Seria um mês aconchegante, estaríamos embrulhados em cobertas enquanto a fumaça do chocolate quente formaria uma nuvem delicada e se espalharia pela casa. Eu correria de meias grossas até o colo, aquele colo, o melhor do mundo, e depois de comer iríamos brincar no gelo. Eu amo brincar.
As portas do trabalho se abrem e eu me arrasto para dentro, sem alternativa. Não quero. Me recuso. Hoje é um daqueles dias que não dá para atender pessoas. Eu imagino o taco de basebol segurado bem firme em minhas mãos e sangue pintando as paredes brancas da loja. “Vai ser a minha decoração de natal. Posso até pendurar algumas bolas”. Saio para comprar algumas canetas diferentes e quando volto me sento bem ao fundo para desenhar e não ser incomodada. Eu amo desenhar.
Começo a pensar sobre o que vou dar de presente para o meu amor, mas o que eu mais queria dar era exatamente esperança. Cumplicidade. Segredos. Sonhos. Não sei se posso passar tudo isso no cartão de crédito e parcelar em 12x, mas gostaria que isso durasse o próximo ano inteiro, até que eu pudesse renovar o presente. Posso tentar passar no débito, mas não sei se o agora paga meus desejos para o amanhã. O que pulsa em meu peito nesse instante é a certeza de não querer ser o que sempre fui e fazer o que sempre faço por medo de enfrentar novos problemas. Eu ainda quero poder sentir a magia, mesmo que eu seja um caco.
Talvez eu possa me transformar em um caco de garrafa de Coca-Cola e toda vez que ele me ver, tenha um vislumbre gracioso de como é dançar em uma noite natalina com os cabelos salpicados pela neve. Talvez ele junte os cacos e cole. Talvez minha beleza seja todos esses caquinhos que brilham sobre a luz tão macabra que repousa sobre a minha vida. Talvez eu possa ser a estrela do topo da árvore dele. Será que ele ainda lembra que eu também sou a árvore?
Acho que escolhi meu presente. Vou me enrolar em luzes de natal e me embrulhar numa caixa azul bem bonita com um “Boas Festas” na frente. Quando ele abrir, vou dizer: Surpresa!!!

      Talvez ele fique feliz ao me ver.

Esse texto foi escrito próximo ao natal do ano passado, mas como era exatamente assim que eu me sentia na época, achei invasivo demais postá-lo. Agora, aqui estamos nós, eu longe daquele trabalho infernal e longe de todas essas questões, pronta para viajar com o meu amor. Uma perspectiva bem melhor, né?

Espero que tenham gostado, e boas festas! Até 2018!!!

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