Três

Bloqueio. Sim, o maldito indesejado bloqueio. Aquele, que se parece com como eu me sinto ao chegar a alguma festa.
Desde que o ano começou não tenho conseguido escrever nada. Essas bostas, esse monte de bosta que vem acontecendo me trava. Eu simplesmente não consigo.
Abro minha pasta de projetos de livros.
Três.
Três malditas ideias que venho tentando desenvolver.
A mais antiga delas tem 20 páginas e está encostada há três anos.
Me nego a acreditar. Parece ter sido ontem que Wind surgiu entre uma soneca e outra, desferindo golpes com sua espada em meio a passos de dança. O brilho de seus cabelos loiros no sol. O brilho do meu olhar. O brilho da ideia, agora ofuscado pelo tempo.
“All our light that shines strong only lasts for so long”.
A filha do meio tem dois capítulos prontos e o terceiro ficou em andamento. Ficou.
Fede a álcool e canta Luxúria todos os dias. Nasceu do brilho também, de uma luz tediosa entrando pelas frestas de uma persiana encardida. Garota suja e triste, nua em sua cama. Lembro-me dela com carinho e sinto saudades, mas nenhum resquício de força me atinge para que eu consiga prosseguir.
O sujeito criança, recém colocado no mundo, já não é tão recente assim.
Ouvi sua voz morta-viva pela primeira vez em um dia chuvoso, banhado de Oasis. Eu andava por entre os carros e aquela voz que não podia estar vindo de um ser vivo narrava a dor e o pesar arrastado de sua insignificância no mundo. A desistência.
Guardei sua voz fundo no peito, jurando colocá-la no papel. E assim fiz ano passado.
Três páginas.
Três páginas bem escritas, confesso.
Porém a morte fez de meu ombro seu galho, e tudo que paira embaixo de mim simplesmente murcha e se desfaz. Pétalas de uma rosa sem cuidados.
Como serei capaz de dar vida, quando a minha própria virou cacos?
A vitalidade, ainda que morta, precisa existir e emanar alguma coisa. Qualquer sentimento que seja. Já não faço de minhas palavras uma fuga. Estou cansada de fugir. Quero encontros. Que eu e o inexistente reinventemo-nos juntos e que algo que não sei se ao menos existe, se salve.
Quero que o riso encontre o riso e vire gargalhada.
Quero que o choro encontre o choro e vire rasgo.
Quero que a raiva encontre a raiva e vire estouro.
Quero que o amor encontre o amor e vire página.
A receita para o desbloqueio, sei não saber. Provavelmente você não sabe também. Mas enquanto arranco do meu peito esse singelo desabafo, entendo que não quero fórmulas mastigadas. Quero encontrar minha forma de vencer.
Talvez o encontro do vazio com o vazio preencha alguma coisa, afinal.

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7 comentários

  1. também tenho ideias de livros paradas. há uma de que sinto especialmente orgulho, e não tenho coragem de pegar nela.

    a forma em como está escrito {o “livro”} é tão poética, tão mágica que não sei se consigo pegar nesse fio.

    também não sei a fórmula secreta. acho que está algures dentro de nós.

    e sabes uma coisa? acho que só no vazio o encontraremos. afinal, livros são feitos de páginas brancas à espera de serem preenchidas. ❤

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    1. É reconfortante saber que mais pessoas passam por isso, porque assim um motiva o outro. Entendo bem como é o sentimento de escrever algo maravilhoso em um dia e no outro não se sentir capaz de continuar à altura. Dias de luta, dias de glória.

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  2. Se esse desabafo não foi um desbloqueio então eu não sei o que é um bloqueio mental para escrever coisas e desaguar devaneios. Espero imensamente que todo o anseio oi desabafo se mescle com páginas inteiras de palavras e livros inteiros de emoções efêmeras.

    Bem vinda ao meu blog e irei aguardar ansiosa pela projeção dos teus projetos. Sucesso e tenha um ótimo dia ensolarado finalmente 😉

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    1. Seu comentário foi muito bonito, Maria. Meus bloqueios são mais em relação aos projetos mesmo, já que não posso estar deprimida para dar continuidade à eles. Quando se trata de desabafo é um pouco mais simples, já que estou falando somente da minha dor!

      Muito obrigada! Desejo sucesso em seus trabalhos também!

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