O vôo

– Mas querida, porque tanta raiva em teu peito?

– Sinceramente doutora, não foi falta de esforço para detê-la. Ela volta. Assim como Maria, ela jogou suas migalhas pelo caminho. Sempre me encontra. Pode me receitar algo?

– E você sabe me dizer o que odeia? Já parou para pensar a respeito?

– Eu odeio sentir. Odeio essa energia ao meu redor, tão vívida. Entra pelo meu nariz e sai pela boca ou vice-versa. Entope meus poros, me entorpece as ideias e escurece minha vista. Eu odeio sentir. E eu sinto tanto! Sinto a vida, essa energia desgraçada circulando em volta de mim. Em volta de tudo. Caminhadas sutis e cavalgadas. O nascer podre e lindo das coisas. A morte súbita, efêmera, tosca, mas acima de tudo bela. A dor me corrói, doutora. Pode me receitar algo?

– Não acho que seu caso tenha a ver com remédios, querida, não é isso que vai te curar. Você me disse que consegue fazer a dor sair por um tempo. Como faz isso?

– Por transferência.

– Perdão?

– Transferência. Rasgo minhas pernas. Grito até minha voz atravessar paredes. Espanco. Arranco flores e corto fora suas pétalas mais bonitas. Movo a dor de um lugar para o outro, para um que doa menos, de preferência.

– Acredito que devemos agendar mais algumas sessões. Tenho um método para testar com você. Afinal, não é bom querer se livrar de seus sentimentos porque…

– Eu já sei o que vai dizer. Não, obrigada. Não quero outra sessão, eu quero algum medicamento. E não quero sentir as coisas belas também. Não quero sentir mais nada. Não quero sorrir quando vejo o sorriso dele, porque quando ele vira as costas isso dói muito mais. Quando se elimina os sentimentos, as expectativas vão embora junto. Elas são o pior mal. É preciso erradicá-las.

– Você se tornaria um robô. Consegue entender que sentir faz parte de sermos quem somos? Você realmente acredita que se fosse vazia seria melhor?

– Acredito que sim. Ninguém mais iria sofrer por ter que aguentar meu amor despejado sobre eles. Meus sonhos. Meus sorrisos. Eu iria falar o necessário. Fazer o que tinha que fazer. Se as pessoas fossem embora, tudo bem. Se ficassem, tudo bem. Tudo bem. Eu só queria que ficasse tudo bem, igual é para o resto das pessoas.

– Você é uma pessoa. É exatamente como elas. Como eu, como todos nós. Só não acredita nisso.

– Então quer que eu acredite que exista controle pra isso que carrego no peito? Isso é demais. Isso sim é loucura, doutora. Isso aqui é dominante. Vem antes de qualquer pensamento controlador e devasta tudo até não sobrar mais nada pra controlar. As pessoas não sentem isso. Elas não sabem o que é isso. Tá tudo bem com a vida delas, tá tudo fluindo conforme o curso natural das coisas. Minha vida é um rio cheio de pedras. Não flui nem nunca fluiu. E dói ver que nunca serei como eles. Você não vai ligar para um psiquiatra mesmo? Eu preciso tomar algo doutora, eu preciso…

– Se você acreditar que é impossível, assim será. O que você precisa tomar é o controle da sua mente, te fazer enxergar que é tudo questão de ponto de vista e então se deixar guiar por um ponto de vista melhor.

– Bom, então é assim que vocês resolvem os problemas de vocês? Mudam fatos? Fatos não são fatos se podem ser mudados. Você já conseguiu desligar a gravidade também por não querer acreditar nela?

– Senhorita…

– Não importa. Eu sei o que eu sei. Os sentimentos precisam ser correspondidos para que as coisas felizes aconteçam. Ninguém ama como eu amo. Ninguém sofre como eu sofro. Ninguém sente como eu sinto. Ninguém vive como eu vivo. Logo, tudo isso aqui não faz o menor sentido. Se eu simplesmente desvanecer, em um pestanejar tudo estará sereno novamente. Pois é assim que o interior dessas outras pessoas são. Confusão mágica, que basta um pensar e arruma-se. Todos filhos de Harry Potter. E eu, mera sangue-ruim. Nada flui aqui. Nada flui aqui e nem irá fluir. Sabe porque? Você consegue ver? Ei, olhe pela janela… nada flui, nada flui e….

– Senhorita, mantenha-se sentada por favor e não arranhe mais seu pescoço. Preciso que compareça ao psiquiatra, irei agendar a visita para você. Alô, doutor Fernandes? Tudo bem sim, obrigada. Estou com uma paciente em crise e…  EI! Não faça isso, estou conseguindo seus remédios…

– A vida é feita de extremos pelo que vejo, doutora. À beira de que mais preciso chegar para conseguir as coisas que quero?

– Senhorita, acalme-se por favor. Coloque essa cadeira no chão, não quebre mais nada, daqui você irá imediatamente para uma consulta com seu novo psiquiatra e…

– Tudo bem. Eu não quero mais. Você tinha razão, não são remédios que vão me curar. Remédios não mandam nada embora, pelo contrário, eles prendem. Eu já descobri afinal o porque dessa dor sem fim. Eu não nasci pra fluir porque quem flui é rio. Eu tenho asas e irei voar.

– …

– Alô? Alô? Doutora Migelani?

– …

– Alô? Doutora? O que foi esse barulho todo? Está tudo bem aí?

– Nada doutor. Apenas outro pássaro que fugiu pela janela de encontro a prometida liberdade. Só que asas quebradas não voam.

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