02/15

Ao acompanhar minha mãe ao mercado em uma tarde, o sentimento de infância se agarrou em minhas pernas e me acompanhou durante todo o trajeto. Enquanto eu buscava as coisas que eu queria comer, ia passeando pelos corredores com olhos vendados pelo espírito do passado que me guiava. Era ali mesmo naquele mercado. Eu corria sozinha diretamente para a seção de brinquedos ou materiais escolares, empolgada pelo natal que chegava, e o novo ano na escola que se aproximava. Eu me imaginava tendo todos aqueles brinquedos, pensava em como aquilo me deixaria feliz, todas as tardes divertidas que eu teria brincando com os amigos na companhia dos meus novos bonecos. Provavelmente, alguma coisa ou outra eu pedia. Nem sempre eu ganhava. Mas quando ganhava, me contentava plenamente com o que me era dado. Além dos brinquedos, eu também passeava pelos corredores dos itens domésticos. Sempre gostei de utensílios bonitos, vasos de flores, taças brilhantes. Eu me via ali, em meio as coisas belas que eu gostaria de ter em casa.
Continuei meu caminho, esbarrando pessoas, olhando pessoas, quando eu vi um garotinho de mais ou menos quatorze anos que chamou minha atenção. Eu quis falar com ele. Eu quis conversar e ser amiga, e esse desejo era intenso, eu queria que ele me visse ali. Ele viu. Mas estava acompanhado da mãe, e seria um tanto estranho me aproximar assim. No momento em que pensei isso, recordei que um dos meus maiores hábitos de criança era fazer colegas por onde eu passava. Eu perseguia pessoas interessantes pelas lojas e mercados e arrumava qualquer coisa para puxar assunto. Eu não me importava se achavam estranho, ou se eu era espontânea demais. Eu queria, eu fazia. Entretanto, devia ter entre uma ou outra dessas pessoas que tentei ser colega, aquela que não quis. Aquela que sorriu torto e envolveu as pernas da mãe em um abraço. Aquela que nem sequer sorriu para mim.
Quando aquela nostalgia toda passou, vi que eu ainda gostaria de pedir um boneco de presente. Que eu gostaria de ter meu quarto cheio de ursinhos de pelúcia. Eu quis correr atrás daquele garoto e dizer oi e depois sair correndo, abraçar minha mãe, morrendo de vergonha. Também quis ter taças bonitas para brindar um feliz ano novo daqui alguns meses, não na casa dos meus pais, mas na minha própria casa. Quis ser criança mesmo sendo uma quase adulta. Quis ser adulta ao mesmo tempo que sou criança. Eu quis voltar lá trás, mesmo sabendo que eu não podia. Eu quis viver o passado no presente, sem saber se isso é possível. Eu tive medo. Eu tive medo de tentar ser agora o que já fui. O que sou agora? Caminho em direção dos anos que não vieram, e tento fluir junto com o rio. Vou me batendo pelas pedras, pego um desvio, tento virar peixe, tento sair da água. Olho para trás, mas percebo que por mais que eu queira, ir contra a correnteza é perda de tempo. Deixo meus ombros desmoronarem e suspiro fundo, tentando aceitar o que sou. Sou o que sou, sem nem ao menos saber. Não importa. O que importa é a construção do que está por vir e como vou me descrever daqui uns anos. Ser um adulto não é ter pregado na geladeira uma lista de sonhos com todas as coisas que eu quero ter, todas viagens que pretendo fazer e do ser humano que pretendo ser. Mas é sim, ter uma lista ao lado da cama de tudo que quis e não tive, de tudo que quis fazer e não fiz, de tudo que pensei que seria e não sou. Ser adulto é um acumulo de tristezas, sonhos mortos, desejos não realizados no passado e perdidos no presente. É uma lista de pesadelos. Ser adulto é ser o que não foi.

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