Melancolia (?)

Me disseram que eu ia morrer em agosto. Não duvidei muito por ser um mês melancólico e frio, a vontade de não sair da cama fica firmemente moldada em meus ossos e a chuva me faz pensar sobre o que é existir. O frio me faz companhia, me abraça e me faz tremer, aquele abraço gelado aquece e eu sorrio enquanto olho da janela. É uma vista maravilhosa essa, a da falta de movimento. Alguns carros passam aleatoriamente, passos molhados continuam seus caminhos apressados para chegar logo ao conforto do lar. Da cama. Do abraço de alguém amado. Do filme acompanhado de pipoca.
Esses passos são os mesmos que escuto pela manhã, mas em um ritmo diferente. Os pés se arrastam trazendo grudado ao calcanhar aquela sombra negra chamada preguiça. Aquela preguicinha boba que faz todos rolarem na cama quando o relógio toca e toca lá na alma a dor de ter que sair. Mas as pessoas saem, metidas em seus casacos e cachecóis tão elegantes e as mulheres caminham com os cabelos ao vento, irritadas por se sentirem feias e bagunçadas, mas mal sabem que essa é a bagunça mais linda que existe. Ao fim da tarde, pendurada na janela, vejo o dia adormecer. Os pincéis mágicos do universo começam o infindável trabalho de colorir o mesmo céu novamente, mas não com as mesmas cores e formas, porque o de ontem não se repete e o amanhã jamais será como hoje. O roxo se entrelaça ao azul claro que vai em degrade escurecendo, e na pontinha inicial violeta está o rosa, já se tornando salmão.
A xícara de chá fica entre minhas mãos cansadas, cansadas por terem segurado tanto tempo aquelas xícaras de café. As ideias se fundem entre as partículas do meu cérebro me fazendo acreditar que eu realmente sou eu. Eu sinto elas se movendo, partindo, voltando. Voltam modificadas e melhores, e então eu escrevo. Toda essa melancolia gostosa se acaba em uma frase infantil. De criança tenho muito e pouco, e muitas vezes me perco em minhas dimensões. Digo ser uma, mas o meu único é variável e a variação dos dias e das coisas que escuto me faz ter a certeza de que irei morrer num desses dias pavorosos de calor.
Esses em que a preguiça é intensa e arrebatadora. Causa feridas na alma que começam a apontar no rosto. A dor de estar viva é tanta que não basta chorar pelos olhos e então choro pelo corpo todo, meu cabelo perde o brilho, o gosto pela vida se esvai de qualquer fio de beleza ou esperança. Os passos são lentos seja para fora ou para dentro de casa, e os braços da pessoa amada se cansam rápido do atrito entre os corpos e então cada um fica em um canto, lutando para conseguir um pouco de ar fresco.
Ao abrir os olhos antes da hora prevista, a luz do sol passa entre o vão da janela indicando que o dia será difícil. A motivação é nula, as ideias são confusas, os passos vão aos tropeços em direção à coisa mais gelada presente, nem que seja um coração. E aí percebe-se que em matéria de amor, até no calor ele precisa ser quente, ao contrário do café. Gosto pra amor não muda, independente de clima. O corpo pede refresco mas a alma quer transbordar de frente para aquela combustão desenfreada de paixão. Se corpo e alma não se entendem, temos então um conflito que não será fácil de resolver. E a dor existencial só aumenta. O calor disseca a alma, queima a pele e qualquer possibilidade de algum neurotransmissor trabalhar corretamente.
De fato, o calor traz alegria para a maioria das pessoas e devido a esse relato meu, fica claro que o problema é comigo. Mas não há maneira de não achar incômodo a preguiça ser tão tolerável e humana no frio, mas no calor ser vista de maneira tão negativa. O corpo no frio quer apenas se aquecer e busca aconchego em tudo que seja afável aos olhos ou ao coração. No calor, me desmancho por uma cama para chamar de leito de morte, para nunca mais ter de suportar tal sensação novamente. É uma raiva peculiar. Observo tudo com meus olhos infelizmente vivos e vejo ao meu redor pessoas comemorando o dia de sol, lavando a roupa suja, saindo de suas respectivas casas e questionando a razão de eu me manter contínua e firmemente deitada.
Não, não quero olhar o sol. Não, não quero tomar sol. Não, não quero usar roupas curtas. Não, não quero ir até a praia. Não, eu não quero me mover, não me tirem daqui, não insistam. Meu corpo chora e minha alma clama, meu lugar é na cama e já não me importa mais sua definição de preguiça. Eu quero é o abrigo entre os braços daquele cujo esse maldito calor me roubou, quero aninhar-me nas minhas coisas, séries, bagunça, sentir o cheiro da chuva, molhar-me de amor e notar as lentes de meus óculos embaçarem com o vapor do meu chá, do café alheio, do achocolatado, não importa.
Não quero mais convites, mas convido a se retirar com toda a gentileza, verão. E­­­­­­­­­­sses tais convites recheados de alegria têm semelhanças com o abraço da morte, e se for pra morrer de calor, coloca-me num caixão e deixa queimar então.

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4 comentários

  1. Mel!! Sensacional mesmo! Que delícia que foi ler esse texto, que qualidade!
    E você não está sozinha, eu entendo seus sentimentos de paixão ao frio, ao cobertor, aos chás e entendo como no calor nem mesmo nossa cama é aconchegante. Vamos contar os dias para o fim do calor juntas! Também adorei saber que não sou só eu que me sinto feia e desarrumada pela manhã rsrs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Aee!! É bom ter gente que me entenda, pq ultimamente tô vendo muita gente adorando esse calor. Não sei como algo que não deixa nem a gente dormir feliz pode ser bom! Fico feliz que tenha se identificado e gostado, saiba que você também faz parte das mulheres que são lindas descabeladas ao vento, todas nós somos. Vamos contar juntas os dias para o inverno e brindar com nossas xicaras de chá :3
      Beijinhos!

      Curtido por 1 pessoa

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