I see fire

A menina encostada na porta do bar me fazia pensar em como as coisas eram bonitas. Meus amigos na mesa do bar me faziam pensar que tudo era mais belo em silêncio. Quantas vezes eu esperara por um dia como esse. Um dia de chuva em que eu pudesse ficar sentado em um bar qualquer, jogando conversa fora e tentando conquistar quantas garotas eu achasse necessário. Um dia com os amigos vale ouro, eu dizia para mim mesmo.
Hoje não valia nada. Eu estava com meus fones de ouvido, imerso na música, comendo um frango e contemplando o céu cinza lá fora.
Hoje valia muito. Meus amigos pareciam um quadro de bruxo, se movendo lentamente conforme a música, sorrindo.
Era melhor assim. Era melhor do que escutar a conversa, essa noite. As palavras ferem, mesmo que eu tenha sido feito delas. O silêncio também era uma forma de interagir.
De repente, senti tudo contraditório. Me perguntei se eu realmente queria estar ali. Sim. Talvez. Eu preferia estar em casa. Não. Era exatamente ali que eu tinha que estar. Olhei para a porta de vidro e me vi refletido em forma de gelo e fogo. Os opostos sempre me construindo, e eu me sentia demolido por isso.
Olhei para a garota na porta. Ela parecia carregar o mundo consigo, e toda a beleza e força emanavam dela feito um perfume, que suavemente escorria de seus olhos. Por um instante, tudo que quis foi que o resto daquele boteco sumisse e restasse nós dois. Eu a diria como sua beleza era capaz de mover o mundo. Ela iria sorrir, e caminhar para dentro, por imaginar que sou um completo bêbado. Por sequer ter imaginado pessoas, inclusive meus amigos estúpidos. Por ter me imaginado ali naquela mesa de um bar completamente vazio.
Talvez tudo que ela quisesse era morrer se achando bela e única, capaz de mover o mundo com sua força, que ninguém nunca reconheceu. Apenas isso, enquanto ascendia um fósforo e o jogava contra o chão todo molhado de álcool e admirava as chamas crescendo ao seu redor.
Me perguntei se eu não podia ajudá-la, mas a resposta era óbvia. Eu nem sequer podia me dar o direito de dizer que existo, já que sou fruto da imaginação de uma garota solitária. Mas eu a olhava, e a via sorrir em volta do fogo como se ele fosse um velho amigo. As chamas se alastraram até mim, e queimaram meus braços. Senti dor. Vi então, que na cabeça daquela menina, eu era tão real quanto o fogo. Vi então, que eu podia salvá-la.
Atravessei as chamas, ela se virou e me estendeu suas mãos. Segurei-as, ela sorriu. Saímos caminhando junto com a chuva que iniciava, para acabar com o fogo que estava consumindo tudo que estava a sua frente, lentamente.
Ela estava segura. Era a única certeza que eu precisava ter. A chuva se acalmou, e um vento gelado soprou. Eu sabia que estava na hora de ir. Fui-me com os sopros gelados. Voltei para o lugar onde nasci: voltei para a imaginação. Mas voltei feliz, sabendo que eu poderia ser real se alguém acreditasse em mim com todas as forças. Descansei em paz, enquanto a garota, a minha garota, se deitava em sua cama e se preparava para esquecer do quão poderosa podia ser, se apenas acreditasse.

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