Diários de uma vida

Sim, sim. Vida tosca que gera escritas interessantes, ou não. Eu mencionei no primeiro post que ainda escrevo diários, e que falaria sobre isso, certo? Certo.

Uma coisa interessante sobre diários, é que não importa se você acha que não mudou muito no decorrer da sua vida. Esses pedaços de papel nos provam o contrário. É saudável olhar para trás e ver o quanto evoluímos. Por isso, sempre mantive os meus diários por perto, exceto um que eu ateei fogo em um acesso de raiva. Mas antes, fiz a gentileza de ler página por página, para poder notar – e bem detalhadamente – como eu estava sendo otária.
Mas mantendo o ritmo e a organização das coisas, tentarei explicar os benefícios que escrever diariamente, ou quase, me trouxe.

Percepção positiva.
É difícil perceber que tudo pode ter um outro caminho, que as coisas nem sempre são um túnel sem fim. Quando leio sobre meu passado, da forma sincera que eu coloco em um diário, vejo que acabou passando. Que aquilo que me tirava a sanidade parecia um problema gigante e sem solução, e que de alguma forma eu acabei resolvendo. E muitas vezes, essa forma foi escrevendo mesmo. Isso é importante de lembrar quando estou travando minhas novas lutas. Parece um caos agora, e talvez seja mesmo, mas nem por isso é algo sem solução, já que a vida se trata de resolver caos interiores e alheios também.

Resolução de conflitos que não eram tão conflitantes. (Ou eram)
Quando escrevo, despejo tudo que há em mim exatamente da forma como me vem na cabeça. Se sai meio louco e confuso, é porque é um reflexo do que está ali dentro de mim, pulsando e envenenando. Quando termino e leio tudo que eu escrevi, é como se eu saísse do meu corpo e me olhasse de fora. Não dizem sempre que quem vê o problema do lado de fora, vê com mais clareza? Esse é o objetivo. Eu consigo me encarar de forma imparcial, e analisar a situação nua e crua. Muitas vezes percebo que eu fiz tempestade em copo d’água, mas quando o problema é real, a imparcialidade me faz encontrar a solução para o problema.

HD externo de lembranças.
Exato. Muita coisa eu deixo passar, não propositalmente, mas a mente não vai conseguir armazenar tanta memória detalhada assim. Ficam os flashs, ou quando a memória é intensa e triste demais, acabo esquivando tanto, a ponto dela começar a desvanecer. Quando encontro algo que escrevi, aquilo volta à tona. Parece ruim, mas não é. Se tem algo que descobri recentemente, é que não resolve nada fugir de coisas ruins, tenho que enfrentá-las sempre. Às vezes nem é algo tão dramático assim, não tenho um motivo para esquecer determinada coisa, mas a maioria das memórias ficam armazenadas em um cantinho bem mais profundo que não dá pra ter um acesso direto e tão fácil. E aí, se eu escrevi sobre isso, quando eu ler, aquilo vai voltar. É uma experiência ótima, ler os detalhes, todas as emoções que senti quando vivi aquele momento. Dá pra sentir um filme dentro de mim passando, tranquilamente.

Evolução.
É o que disse no início. Muitas vezes acho que não mudei, que não melhorei em nada e ainda sou a mesma de anos atrás. É quando vejo os problemas que enfrentei no passado e olho para os atuais, e quando vejo os caminhos que tracei, que percebo que muita coisa mudou. A maneira de pensar a respeito da vida, do amor, da morte e dessas coisas de sempre mudou, a maneira de se comportar com as pessoas ao meu redor mudou. Eu cresci. E também é legal ver o que não mudou. Qualidades minhas, a minha essência permanece e me faz cada dia mais eu. E por fim, talvez mais útil que isso, é perceber que um problema do passado está se repetindo agora, e ter a chance de não cometer os mesmos erros, aprendendo comigo mesma.
Uma coisa que notei esses dias, quando minha mãe encontrou um caderno meu de quando eu tinha 15 anos, foi a evolução da minha escrita. Eu sempre mantive contos e crônicas salvos, muitas vezes os reli e realmente achei que estavam bons. Com base nisso, fui acreditando que minha escrita não havia mudado muito no decorrer desses anos. Mas o que acontece, é que provavelmente essas poucas coisas que salvei do meu passado e que eram boas, foram feitas em dias de uma inspiração excepcional. Notei, porque nesse caderno encontrado, havia um começo de uma tentativa de livro que não quero nem ao menos considerar tentativa. Era pessoal demais. Eu não conseguia criar um personagem que não fosse eu, e nem outros que não fossem o garoto que eu estava apaixonada e minha rodinha de amigos. Logo, não conseguia criar nada, nada além de um lugar com as mesmas pessoas da minha vida real onde as coisas davam certo pra mim. Hoje, vejo que sempre haverá um pouco de mim nos personagens e um pouco deles em mim. Rola compreensão, uma troca de ideias, brigas. E quando vou ver, estou entendendo a mentalidade daquele sujeito detestável que criei, e que agora me parece um tanto afável. Quem nunca, não é mesmo.

Sem contar, que um diário nunca vai ter o mesmo estilo que o outro se você não quiser. É de soltar tudo assim, que vejo que a criatividade está ali dentro só esperando uma página em branco pra sair. Num despejar de ideias eufóricas, muitas vezes acabei encontrando frases ótimas e que podem ser reutilizadas um dia.

Essas são algumas das coisas boas que consegui encontrar para motivar pessoas a escreverem o que sentem em algum canto. Espero que você aí, que está sentindo seu corpo como um campo minado prestes a ir pelos ares, encontre nisso uma solução para descarregar todas suas dores e amores, medos e segredos.

Por hoje é só, e até a próxima dose! 

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5 comentários

  1. Mel, concordo com tudo isso que você disse sobre o ato de registrar nossas memórias por meio da escrita, não conseguiria descrever melhor, só acrescentaria a satisfação que é notar que superamos algo.
    Eu comecei escrevendo poesias, mas maioria são particulares mesmo, pois era como um diário para mim, escrevia sobre coisas que achava que nunca ia esquecer, dores que nunca pagariam de doer, hoje quando as releio, é uma satisfação ver que mesmo voltando à memoriam dor já se foi. É como se nós mesmos nos falassemos que somos fortes , mais fortes que os problemas!

    Adorei o artigo ^^

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    1. Caramba, deve ser maravilhoso reler poesias antigas, é uma forma de guardar o passado de uma maneira bem única! Eu confesso que comecei a tentar escrever poesias agora esse ano. Sempre fui de escrever diários ou crônicas, até que decidi treinar a escrever ficções. E depois, por último, tô arriscando poesias. Mas que bom que gostou, realmente é um sentimento maravilhoso saber que estamos mais fortes, e que podemos ajudar a nós mesmos através da escrita.

      Um abraço, boa noite e ótimo feriado :3

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  2. Eu também já queimei muitas poesias que eu escrevia desde os nove anos. Aquilo me fez bem, me desprendi um pouco das lamentações transcritas. Essa auto análise é legal porque é o momento que a gente desperta e passa a pensar com mais clareza. Parabéns.

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    1. Poxa, não sobrou nenhuma poesia dessa época? Seria interessante ver, eu acho. Eu queimei o diário justamente por essa coisa de lamentação. A gente pega, relê, a mágoa volta e a gente nunca segue em frente. Melhor dar fim em certas coisas. E sim, essa auto análise pra mim é a que mais funciona!

      Obrigada viu! Um abraço.

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      1. Sim eu também choramingava, me lamentava, e isso era ruim. Eu tinha uma perspectiva errada sobre poetizar, era melancólico. Hoje sou menos hahahahaha, espero. Abraço.

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